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![]() POESIA SEM SABOR
Lílian Maial Por mais que eu queira, não sei das verdades à luz do dia. Tudo o que eu queria era a poesia que existia em acordar apressada, pintar os olhos, alimentar os filhos, estacionar numa vaga qualquer, e sorver os rostos que não se sabiam observados. Felicidade não rima com poesia. Poesia só aparece quando sobra tempo, quando já não se está ocupado sendo feliz. O silêncio tem sempre dois significados, e a saudade é a mortalha derradeira de um tempo que não se quer findo. A saudade tem mania de aguçar a memória, de pintar os dias idos de cor-de-rosa, e acinzentar o que não tem mais. Meu tempo não segue as folhas do calendário, e hoje não me entendo em vinte e quatro horas. Nada me alegra tempo suficiente para virar lembrança. Nada me pertence ou me é destinado. É como se a areia da ampulheta tivesse acabado e eu não tivesse me dado conta. E daí? Preciso apenas escrever lembranças e versos com sabor de gestação. Preciso das gargalhadas e dos choros de madrugada, dos beijos nas manhãs despercebidas, da sensação de segurança e proteção de um amor prometido. A mulher feiticeira está distante das fogueiras, e a poesia foi dormir mais cedo, numa cama pequena, que não me cabe, sob um edredom macio com cheiro de novo. Não sei mais nada desde há muito tempo, quando a areia deixou de escoar os sonhos, e todos os vidros se partiram em estilhaços de passado. O tempo passa, mas não tenho mais vontade de viajar na incerteza, depois de todas as certezas desfeitas. As paixões deixam gosto amargo e palavras soltas. Deixam imagens desconexas e sensação de fracasso. Não existe verso que me devolva a ilusão. Não quero mais verdades e descobertas, quero a mentira que me embalava os anos e me definia os horizontes. Onde estão as ilusões? Onde os planos e sonhos de madrugadas à luz de velas? Mas eu sei que o meu trem passou em disparada, me deixando na estação, sem nome e sem rumo. Não posso voltar e não sei para onde ir. Então me sento no banco, ao lado de tantos indigentes que, no fim das contas, amaram. ************ Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 09/03/2008
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