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![]() SÓ ISSO
Lílian Maial Isso que eu sinto, de olhar as coisas, de apenas sentir a brisa e não querer atribuir-lhe o que não é, de ser grata que a brisa seja apenas brisa e não a metáfora rota de um passarinho. Isso que eu tenho, de perceber que a espuma do mar é só espuma e não um portal de energia cósmica confluente e, mesmo assim, gostar de deixar que me lamba os pés. Isso que eu dou, quando sinto amor, e que nunca deixo de ter no colo, essa ternura de um sorriso de intimidade com o amor do outro. Isso que eu supunha existir, uma verdade absoluta de dentro do espírito, uma transparência de água límpida, um brilho exultante de um ser humano que penetra o vazio e o preenche. Isso que eu vejo, de não me curvar no meu íntimo, mesmo que todos os poros cantem uma canção diferente, ainda que meu corpo todo aparente aceitar o cabresto, enquanto eu e a outra eu confabulamos, às gargalhadas, a maneira mais marota de transgredir e a menos dolorosa de queimar na fogueira. Isso que eu passo, de viver sob rígidas regras, de me sacrificar pelo que é certo, de abrir mão de qualquer coisa, e que muito poucos percebem o quanto me divirto em ser assim. Isso tudo é quase nada, e se desfaz com a outra face que não dei e, apesar disso, um pouco mais cansada e ferida, ainda posso ter a brisa e sentir-lhe o sopro, ainda corro atrás da espuma e rio com o mar, ainda transbordo um amor intenso e puro, e me inundo de uma alegria súbita a qualquer momento, e brilho noite e dia, feito vaga-lume atrapalhado, que se pensa iluminado só à noite, mas que não tem hora de apagar. ********* Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 02/01/2008
Alterado em 02/01/2008 Comentários
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