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![]() O MISTÉRIO
Lilian Maial Da varanda, numa pequena transgressão ao isolamento, a tarde se expande com um sol tímido, refletindo os muros ainda pichados, rebeldia contra o asfalto quente. Calçadas desertas. No chão, ali adiante, uma brisa arteira atiça folhas secas a rodopiar, como querendo mover o dia. O pensamento gira tonto. Um ou outro com panos no rosto. Assim, de longe, tão parecidos! Quem está por trás da máscara? Sem ela, o risco. Onde esse risco desenha o destino? A imensidão da fragilidade. O medo da violência deu lugar ao medo do toque. Nada é tão cruel quanto a máscara. Outros olhares, outros juízos, outro alguém. Onde esse risco desenha o destino? Decifrar sorrisos por sob o tecido. Desvendar desejos pelo olhar distante. Mudanças. Tempos de fome. De comida e abraços. Os parques lamentam o silêncio dos risos das crianças. As praças choram a falta dos casais nos banquinhos. O mar recua sem pegadas para apagar. As maritacas gritam de desespero sem a algazarra das vozes. O mundo sofre sem a humanidade? A natureza está em paz sem o homem. O homem expia sua prepotência. O vírus ensina. ****** Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 03/08/2020
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