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![]() LITURGIA
lilian maial Não! Não mais derramarei lágrimas pelo homem! Já vai longe o tempo de infância das traquinagens e das gargalhadas. Depois a época de crescer e absorver. Um mosaico de impressões, um caminho de amanhãs, o aprendizado. Tudo pronto para erguer a casa. E ele demoliu as vigas. Tombou os troncos. Derramou a seiva. E veio o fogo, o sangue, o silêncio. Não! Não lamentarei o dia sombrio, o medo, a mordaça, o açoite! Eu o vi depor as armas, minar as forças, encapuzar os sonhos! Eu vi! Presenciei o engodo, a discórdia, o ódio. Contei os erros, implorei por misericórdia, doei palavras para a necessária mudança. Em vão. O homem não ouve o que não quer, é cego ao que não seja seu interesse. Então, não! Não darei absolvição dos crimes contra as memórias de um tempo leve! Não sepultarei a dor em mortalha de trapos! Que ele se regozije com a morbidez! Que ele exulte com a glória dos troféus de areia! Que cante seus hinos de louvor à submissão! Por isso, não! Não chorarei pela miséria do homem! Não serei mais uma voz a lamentar e apontar, a perpetuar a inércia e o desespero! Direi apenas aos seus filhos que eles herdarão a empáfia e a sordidez, o ofício pátrio do execrável, a arrogância da escravidão da criança que mal abriu os olhos ao mundo. Deixarei que carreguem o fardo. Não mais derramarei lágrimas pelo homem que desistiu do homem. ******** Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 21/02/2018
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