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![]() CARTA PARA ALGUM POETA PERDIDO EM PENSAMENTOS SOBRE SEU CAVALO ® Lílian Maial
I.
II.
Corro o risco de não alcançar o objetivo. Há algo de atávico nessa mania de buscar objetivos. Algo. Alga. Mar: infinito e curvo, profundo e inconstante, enchente e vazante.
Estou vazante, inconstante e profunda. tangenciei, curiosa e indolente. E a janela se abriu, como um portal, de interrogação em forma de poesia, contestação em verso branco, folha virgem, ansiando por um poema profano. vastidão de dúvidas, senões, sentidos e música. Pressinto escuridão e luz. Duas portas. Muitas portas e duas pernas. Duas pernas e uma mente octópode. Do outro lado, a fragilidade da poesia, a paixão fugaz de um verso de areia. Grão de sonho. Sílica e lágrima. É o mar: sílica e lágrima.
Tenho caninos nos versos e na mente. Loba, vampira e profana. Poeta.
Eu te mato e te faço o parto em cada verso. Dou-te vida e agonia. E tu anseias pela dor e pelo gozo.
Tu me fazes poesia. E me sinto mais nua. E gosto de me despir para teus olhos. noutro absolutamente devassa. Mas sei que tu me sabes apenas poesia. IV.
Preciso da adrenalina e do ópio, da paz da lembrança e da agonia da espera. Devo-te a adrenalina, o ópio, o beijo, o verso, a estaca no peito, o nó na garganta, a leveza da meninice, o peso da idade, o gozo da fêmea, o colo da mãe. Não! Não devo nada, eu sugo! Buraco negro, que suga e devolve em poesia!
mas me pego ouvindo música e indo a ti em notas suaves e fragrâncias doces, ao tempo em que me vejo em transe, em sintonia cósmica com a perplexidade de nós.
que matéria é ânsia e perda. Não quero me acostumar a ti, mas preciso te ler sempre por perto, te sentir me observando, captar teus medos e teus lapsos, tuas meninices absolutamente infantis e tuas verdades senis.
V.
e tu te aderiste, me foste receptor. Tenho versos, reversos, inversos, anversos. onde sou mais eu que eu mesma.
VI.
impossíveis, imprevisíveis, arrebatadores, irritantes, descartáveis e funda-mentais.
Somos dicotomia elementar. Quero a palavra que nos nomeia. Simples assim: quero.
a palavra vem adquirindo vontade própria, evito contato mais íntimo com ela.
absolutamente atéia, mas sei mais de deus que ele de si ou dos homens. Não te quero confortável. Quero beber tua agonia, tua dor e tua poesia.
VII.
até o último terceto, tu os escreves avessos aos sentidos, mergulhas neles e surfas na paixão que eles instigam. gargarejas com as lágrimas que deles rolam, E dás de comer aos tubarões...
VIII. o medíocre e o brilhante, o homem e mulher que tu me és,
Mostro o tornozelo da dama da noite, da senhora dos versos, da dona da saudade. Abro-me e me fecho, mostro e me escondo, ouso e me retraio. Mas grito teu nome, que nem me lembro de cor.
IX. Há o débito, confesso. Porém não sei nem se pretendo pagar. Quem sabe não prefira esperar que me seja arrancado à força e com suavidade... o peito que esfolo e que escrevo versos de distância e de insolência. O corpo que acaricio e arranho, As facas de dois gumes!
X. Mas se tudo falhar, ainda há o mar. E os olhos. E a lua. E os poemas. Depois nos vestiremos de gente, consumiremos abraços, carinhos e coisinhas infantis. Brincaremos com as palavras, com a pele, a carne, a unha, o (a)mar.
XI.
Nua... Coisa de bichos se reconhecendo: que despe o filho suavemente, que repara em cada dobra de seu corpo, o jeito dos olhinhos, o cheiro, o contorno da boca, os dedinhos, as mãos, os pés... Dissecaria - em silêncio cruel - cada pedacinho teu. Saborearia cada movimento respiratório, sentiria o teu batimento cardíaco. Repararia se tens sopro no coração. (coração de poeta tem suspiro).
Eu me sentiria divina. Me sentiria mãe. Me sentiria nua. Me sentiria culpada. Me sentiria livre. Me sentiria velha. Me sentiria menina. Me sentiria responsável e inconseqüente. Me sentiria segura e descontrolada. Teria medo.
O que vomito em ti é tão meu, que não caberia exibir nem mesmo a ti. Se teus olhos me encarassem, Saberia que me verias despida, meu pudor me enrubesceria tanto, que sangraria na tua frente. Não dessa que sou, que tem a minha fisionomia. Não dessa que tem meu corpo. Mas estranhamente é a que tem meu cheiro, meu sangue, meu suor e minha poesia. “Poeta em pele de cordeiro"...
Eu te devoro todos os dias e tu deixas, Tu gostas, Tu esperas.
XII.
É mistura do que me consome e do que te apetece. Bom é esse nosso cheiro de coisa esquisita e, ao mesmo tempo, tão familiar. Essa louca vontade de doer e deixar escapar gemido. pré-palavras escancaradas, Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 16/08/2007
Alterado em 16/08/2007 Comentários
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