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![]() AGUACEIRO
®Lílian Maial Dou trombadas pelas paredes, arranjo galos substantivos. Sou um caso raro de poesioma crônico. Se não tenho respostas, descarrego nas palavras. Elas têm consistência de talvez e cor de espanto. Espremo um verso e drena um pingo. Palavras têm cheiro de chuva. Deveria chover palavras e, assim, palavrar os pastos e as montanhas. Poderíamos passear na chuva e colher verbos respingados do telhado. Quando chove, tudo molha, não apenas meu corpo enrijecido. A água amolece tudo, só não desperta meu pensamento de pedra. O sono é pesado na balança dos anos. Sou obesa de versos, conversiva. Descubro poemas na pele, como essas manchas do sol. Uma, três, dez, a cada dia mais e mais poemas solares. E vem a chuva e me encharca de palavras, Deixa a oração colada ao corpo, eriçada memória. Preciso secar a umidade das metáforas. Há bolor nas palavras guardadas nas prateleiras. Tenho receio daquilo que vejo. Preciso voltar ao tempo de maria-mole e desaprender desapegos. Saía na chuva e apenas sentia água e atrevimento. Hoje, temo as verdades inundadas de partidas. Anseio pela cegueira da palavra enucleada. Então, com ares de certeza, daria trombadas pelas paredes, Sentiria o cheiro da garoa de letras, E ouviria as águas, o choro, a escoar, Como no olhar perdido da pedra. **************** Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 26/09/2010
Alterado em 21/10/2020 Comentários
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