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ADEUS
ADEUS
Lílian Maial Partimos, e nunca fomos embora. Aceitamos a distância como a cura, a saudade, como lembrança remota, as lembranças, os retratos não tirados daquela paisagem mal-vivida. Uma licença dos homens, por tão curto tempo, como a vida, num segundo, ali, nossa, tão nossa e tão imprópria, tão necessária e tão sem sentido, tão impunemente proibida. Nunca deitamos à sombra, pois éramos a sombra de nós. Saímos, mas não fomos embora. Não conseguimos deter o desejo, a pele. Nossos cheiros se misturaram no instante, e nossas bocas nos sabiam o gosto, nossas mãos ansiaram os gestos, nossos corpos adivinharam os toques. E nos bebemos tanto, com tanta intensidade, nos embriagamos de tal forma, que mal pudemos suportar a dor de tanta entrega. Mas havia nós e os outros nós, a vida, a realidade e a corda de amarrar o peito. Quisemos muito ir embora. E achamos até que fomos. Emudecemos os vulcões, secamos as bocas ávidas, reprimimos os pecados mais e mais, os sonhos dos doces encontros. Até nossas palavras foram amordaçadas e nossos poemas choraram o silêncio. Cuidamos tanto dos detalhes, maltratamos tanto a doçura... E quando tínhamos a certeza de que havíamos ido embora, uma fagulha cadente, uma estrela sem aquela ponta, a mesma música tocada insistentemente na cabeça, aquele beijo nunca apagado dos lábios, aquele encontro único e único, aquele um dentro do outro, trouxe-nos a verdade de que nunca nos despediremos, porque nosso adeus se repete, e repete, e repete, como agora. **********************
Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 22/03/2006
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