Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
23/08/2012 21h57
PEQUENAS COISAS

PEQUENAS COISAS

®Lílian Maial

 

 

Pequenas coisas ainda mostram a minha humanidade: acertar o “soneca” do despertador para mais 10 minutos do melhor do sono, levantar e ver o dia, sorrir com os pássaros fazendo algazarra nas árvores, tentar definir a lua, impregnar a linfa do cheiro dos meus filhos, lembrar de me lembrar de dias distantes.

 

É fácil verificar mensagens de e-mail e novidades nas redes sociais. Ligar a televisão e saber do que se passa do outro lado do mundo. Absorver todas as notícias dos últimos cremes para combater ruga, peito caído, bunda murcha e homens sem palavra. Queria um creme para combater nódoas na cara de pau, ou um dentifrício que segurasse as línguas maledicentes.

 

Ah! Cansei de tanto procurar! Quero achar, para variar um pouco. Vivo procurando me comportar, procurando preço mais em conta, procurando me defender, procurando não deixar o tempo escapar por entre os dedos, procurando dar uma boa formação aos filhos, mesmo que eu não tenha a certeza se a minha foi a melhor. Procurar cansa! Quero achar! Achar a verdade. É pedir muito?

 

Houve um tempo em que imaginava que só havia verdade em tudo. Eu chorava de dor, sorria de alegria, me aborrecia com falsidade, dizia o que pensava e fazia o que me aprouvesse. Será que isso aconteceu? Parece que embaralharam tudo, o mundo virou uma miscelânea de desejos reprimidos e prêmios de consolação. Os valores todos trocados e o gado engolindo a ração.

 

Preciso de todas essas pequenas coisas, pequenas tarefas, pequenos afazeres que me garantem que ainda sou humana. Mais que tudo, essa incerteza me assombra. É um só caminho, mas com tantos atalhos! Um labirinto delicado, um eterno caminhar de volta ao começo.

 

Está na hora das maritacas confabularem e me avisarem do fim do dia. É hora das buzinas, dos faróis, do cheiro de comida dos vizinhos, daquele desconhecido que me envolve na fumaça de seu cigarro solitário na varanda, da criança que chora até pegar no sono, de mais um capítulo da procura.

 

Hoje arrumei armários, lavei roupas, organizei arquivos. Precisava fazer coisas. Amanhã volto ao normal e ligo a TV. Quem sabe não acho mais um filme que me confirme a saudade de mim?

 

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Publicado por Lílian Maial em 23/08/2012 às 21h57
 
22/06/2012 20h20
QUANDO A LUZ SE APAGAR

QUANDO A LUZ SE APAGAR

®Lílian Maial

 

Quando a luz se apagar, outra serei, remexida pelas mãos curiosas dos que pretensamente me conheceram.

De nada valerá, pois não mais estará ali o meu corpo, muito embora a carne possa esculpir o contorno que foi meu.

Nem restará meu olhar, malgrado os olhos cerrados ainda possam destilar certo desdém de azul, num repouso verde ou castanho.

Tampouco meus lábios rubros, de leves fissuras a desenhar quimeras, embora um certo riso mudo, em batom de néon, possa simular presença.

Não, não serei eu, ali, quando o vento não mais emaranhar os cabelos louros, outrora ruivos, na verdade pretos.

Nem aquela, cuja ansiedade levou os anos mais depressa, vivendo outras vidas, para outros, que não eu. Pressa de folhas e frutos, raízes se embriagando de chuva, galhos de não mais abraçar a tarde, agora já noite, em nobre e desnecessário veludo mesclado de renda.

Essa, sim, deitada sem compromisso com o horizonte, sem as amarras da gravidade, que não traz o medo das descobertas e do oculto pesando, como pedra, sobre o músculo exaurido.

A que passou tantos outonos observando as primaveras e suas flores incontestável e odiosamente frescas.

A que, debalde, se mentia a completude, convencia de felicidade, aparentava desproblemas.

Então, quando o inverno gelar por completo minhas vestes de mim e o hálito quente não mais esfumaçar as brincadeiras de cigarro, nas madrugadas de frio, não serei mais a dona das minhas decisões, não poderei impedir que sonhem, que falem meu nome, que pensem coisas a meu respeito. Não terei mais o domínio do ridículo de meu frouxo discurso, armado sobre certezas dizimadas pelas verdades que só eu não conhecia.

Estarei, então, finalmente nua, de uma absoluta falta do que esconder, de um arrogante enfrentamento dos meus segredos e todos saberão que aquela não fui eu. 

E me flagrarão brincando com as folhas ao vento, rindo com as maritacas, pasma com o pôr do sol, chorando com finais felizes, ouvindo as vozes das crianças, sonhando com o semblante de tudo o que se pensa amor.

E todos dirão, com respeito honesto, que aquela sabia o seu lugar.

 

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Publicado por Lílian Maial em 22/06/2012 às 20h20
 
30/04/2012 19h09
GRANDEZA
Era uma felicidade só, perceber que o sol se recolhia. Faltava pouco para anoitecer e ela poder se regozijar com os pontos cintilantes do céu estrelado. De uns tempos para cá, ela passara a perceber essas coisas. Tornara-se uma mulher romântica, cuidadosa e observadora. O tumulto do trânsito já não a incomodava, somente os perigos das ruas a colocavam em alerta. Mas aquele pássaro elegante, em seu voo rasante às margens do riacho, desviava sua atenção de qualquer dissabor. Mais uma quadra e estaria lá. Imaginar aqueles braços ao redor do pescoço, a boca molhada ofertando um beijo único e lambuzando seu rosto, as palavras desconexas... A simples antecipação dessa imagem lhe trazia prazer. Um prazer tão peculiar! Chegou! E imediatamente se ajoelhou feliz, para receber aquele abraço tão esperado, de entrega total e verdadeira, que nem a morte poderia separar. E beijou seu filho como fazia todas as noites.



 

 


Publicado por Lílian Maial em 30/04/2012 às 19h09
 
11/04/2012 19h56
PAIXÃO

PAIXÃO
®Lílian Maial

 


Na varanda, debruçada sobre mim, uma vontade natural de voar. A noite acolchoa as vísceras incômodas e o luar se esconde para não testemunhar a alquimia. Transformo vinho em água. Não faço outra coisa que não aguar desde menina.
Acende-se a luz amarelada em frente ao sonho. Perturba-me o silêncio da janela fechada lá longe. Prefiro o som das mangueiras esguichando, o óleo na ...superfície lisa refletindo cores. O velho cheiro urbano de problemas.
Pessoas nos ônibus, sacolas de compras, carros que vão e vêm, todos distantes, ainda bem. Eu estou distante e reluto em chegar à varanda. Quero o manto nublado de encobrir esperas. Pesa-me a cruz. Tantas cruzes, cicatrizes, contusões.
Preciso da chuva das sextas-feiras santas para lavar o sangue que circula em minhas veias desde sempre. Meu sangue contaminado de poesia. Estúpido ofício. Não aprendi a gritar em silêncio. Não me ensinaram a desconfiar de versos simples. Não sei fazer mais nada, senão esperar.
Meu pai tinha um pó de fechar as chagas. Devia ter-me pulverizado em carne viva, me coberto inteira. Mesmo assim não curaria aquela que não sara, que não seca, que escoa pelo canto do olho.
Não gosto da varanda à noite. Não gosto de mim à noite. Não gosto de meia-noite. Não há um pingo de chuva. Não há uma gota de mim.

 


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Publicado por Lílian Maial em 11/04/2012 às 19h56
 
12/02/2012 13h40
Mais uma estrela que brilha no céu

®Lílian Maial

 

Whitney Houston faleceu ontem, encontrada numa banheira de hotel, sozinha.

Eu, aqui, envolta em meus problemas, acreditando serem os maiores do mundo, e sou pega de surpresa com mais essa morte de uma pessoa que teria tudo para ser feliz, uma talentosa cantora, com uma das vozes mais potentes e interpretações mais belas, e a artista mais premiada de todos os tempos, conhecida como “The Voice” (A Voz).

Prima da não menos famosa Dionne Warwick e afilhada da diva Aretha Franklin, Whitney começou a cantar com coral gospel júnior, aos 11 anos de idade. Daí, passou a cantar com a mãe em casas noturnas, até ser descoberta e se transformar em sucesso.

O que leva uma pessoa como Whitney a se deixar cair em álcool, drogas, submissões? Como alguém que canta “The greatest love of all is easy to achieve learning to love yourself, it is the greatest love of all” (que literalmente significa “o maior amor de todos é fácil de alcançar aprendendo a se amar, esse é o maior amor de todos”) pode simplesmente deixar de se amar? Ou será que nunca se amou verdadeiramente e buscava isso incessantemente?

Não entendemos nada do ser humano. Há uma tendência a pensar que as outras pessoas não possuem problemas, notadamente as mais abastadas. Acreditar que vivem em mares de rosas, têm vida de contos de fada, não sofrem. Aí, de repente, uma notícia como esta.

Quantos artistas, ao longo dos séculos, já não se destruíram, a ponto de tirar a própria vida, cortar fora a orelha (ou outras partes do corpo), se deixar seduzir pelas drogas, álcool, anestésicos, para conseguir suportar tamanha dor? De onde vem essa dor? Cobranças do sucesso ou, melhor dizendo, do declínio? Ou será possível que todos já fossem deprimidos antes e tentavam o sucesso como forma de preenchimento de seus vazios? O que se esconde por trás dessa dor e solidão dos grandes mitos?

Seres humanos simples, de carne e osso, buscando o entendimento, o amor, a felicidade, como qualquer um de nós. No entanto, têm suas vidas expostas, constantemente vigiados, criticados, cobrados. Não conseguem ter paz, embora tenham riquezas.

E eu aqui, num dia nublado como meu momento, ouvindo baixinho “I will always love You” e “I Look to You”, tentando acreditar que o maior amor de todos é o que está dentro de nós. Whitney nos disse isso. Mas não escutou.

 

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Publicado por Lílian Maial em 12/02/2012 às 13h40



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