Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
20/07/2013 19h19
INFERNO EM SALTO ALTO

INFERNO EM SALTO ALTO

®Lílian Maial

 

 

Há dias em que é melhor não levantar da cama, pular o calendário e esquecer a data.

Pois bem, num desses dias furtaram meu velho e querido celular. Sim, esse objeto dramático, que invade nossas vidas, guarda nossos segredos, escuta nossas mágoas, alivia nossa ansiedade. E ainda atende às nossas ligações. Ele foi feito pequeno, cada vez menor, para ser levado no bolso. Acontece que bolso está fora de moda, ainda mais em roupa de mulher. Então, para onde quer que eu vá, tenho que andar com aquele tijolinho falante nas mãos.

Estava eu no trabalho, com um copo e uma colher para lavar, em uma das mãos, e o celular na outra. Como não podia deixá-lo molhar, pousei cuidadosamente o aparelho sobre a bancada da pia, longe dos respingos, e tratei de cuidar do que tinha ido fazer.

Nisso, um velho conhecido me descobriu na copa e me chamou, com aquela alegria bem característica, exigindo, naturalmente, atenção e demonstração de afeto. Claro que eu me esqueci de pegar o celular e lá fui eu falar com o indivíduo, segurando o copo molhado, numa das mãos, e o talher, na outra.

Depois de um diálogo rápido, mas suficiente para me distrair, voltei para minha sala. Quando quis fazer uma ligação, dei por falta do celular. Veio aquele frio na espinha, de quem se vê diante de problemas e não quer acreditar. Procurei por tudo que foi lugar, refiz as ações dos últimos trinta minutos, voltei à copa, mas não mais o encontrei. Droga! Minha lista de contatos, minhas fotos queridas, meu aparelho sob medida! Liguei do telefone de uma colega, na esperança de que alguém o tivesse encontrado e guardado, mas quem o achou o desligou, denotando a intenção de não devolvê-lo. Droga! Será que no meu local de trabalho coabitam bandidos? Custei a me convencer de que havia sido furtada ali.

Bem, já que estava tudo perdido, agora era bloquear o aparelho e a linha. Feito isso, parti para adquirir novo celular. E aí é que começou o problema: meu antigo aparelho era simplesinho, basicamente só um telefone que também tirava fotos e tinha alarme despertador.

Na loja operadora da minha linha, o atendente, superatencioso, dizia, com toda a ênfase, que eu tinha pontuação para tirar um megacelular, um smartphone inteiramente grátis!

- Que inferno! Eu quero um igual ao meu que foi furtado!

- Não tem mais, senhora (cadê a senhora?), é ultrapassado, agora são todos modernos...

Já fiquei fula com esse “senhora”, com a vozinha arrastada, meio de deboche. E ainda me vem com a insinuação de que meu celular era démodé?

- Bem, já que não tem igual, então me veja um bem simples e de fácil manuseio.

- Ah! Senhora (caceta...), todos agora são de fácil manuseio, que até uma criança de colo consegue usar... (Já estava começando a gostar da criatura...)

- Senhora (porra, para!), este aqui é o mais simples, mas a senhora (é a mãe!) tem direito a um aparelho fabuloso e de graça! Este aqui, o mais sem graça, só tem câmera, teclado qwerty, touchscreen, internet, wi-fi, 3G, acesso a Skype, Facebook, Twitter, Instagram, correio eletrônico, play store e poucas coisas mais.

- Ele faz ligações telefônicas?

- Faz, senhora...  (merda, que saco!)

- E como funciona?

- Veja, é simples: a senhora (vou mandar esse sujeito pra PQP se falar senhora de novo!) toca na tela, escolhe o contato, o browser, checa a rede social, clica no ícone. Antes tem que completar a lista de contatos, mas ligar é facinho.

- E pra acertar o despertador?

- A senhora (Ah, não, não vou tolerar mais isso!) digita o número e salva (disse isso com a cara mais babaca que eu já vi).

- Mas como salva, salva onde?

- Bem, senhora (vou estrangular esse cara!), aí tem que ler no manual.

Gostei desse camarada, mas ele definitivamente não estará na minha lista de contatos...

 

Enfim, estava com um celular touchscreen... Pensando o quê? Nada mais de ficar ligando sem querer para qualquer pessoa pelo fato de o celular na bolsa encostar em alguma coisa. Que nada! Agora é tocar na tela e escolher a função...

Tudo ótimo! Imediatamente comprei capinha moderninha e espalhei a notícia para a família e amigos mais chegados. Estava novamente conectada! O carinha safado – o senhor - me ensinou a colocar uma senha de bloqueio de tela. Coisa chique. Alfanumérica, tá legal? Não é pra qualquer um, não... Perua de lei! E protegida por senha!

Saí da loja no salto alto, toda elegante, de smartphone. Até que o telefone tocou. E agora? Como é que faço para atender? O cara não me explicou como se atende essa geringonça, como se desbloqueia a senha! Só sabia me chamar de senhora pra cá, senhora pra lá, o sacana!

Apertei tudo que foi botão e nada. Som alto, todo mundo me olhando no shopping, como quem diz: - Porque a perua não atende essa porra de smartphone?

Já estava desesperando, pensando em jogar o dito cujo na primeira lixeira que avistasse, quando me veio a ideia de desligar o troço. No que toquei no botão de desligar, ele silenciou e apareceu um telefoninho verde na tela. Ouvi uma voz ao longe:

- Alô! Alô! Você está aí? (Era mamãe).

- Oi, mãe! Sim, sou eu!

- Porque demorou tanto a atender?

- Nada, não, mãe, é que meu salto quebrou...

 

 

****************

 

 

 

 

 

 

 

 


Publicado por Lílian Maial em 20/07/2013 às 19h19
 
22/05/2013 00h04
Sobre essas coisas que batem à nossa porta, sem mais, nem menos...

 

Sobre essas coisas que batem à nossa porta, sem mais, nem menos...

®Lílian Maial

 

 

É estranho ainda pensar em nós depois de tanto tempo. Inevitável, quando já se comemorou tantas e tantas vezes a mesma data, que se anseia por ela, contando orgulhosamente os anos.

 

Vem aquela dor fantasma, que nem a que um amputado sente muito tempo depois da cirurgia. Não consegue entender o membro ou órgão operado. Sabe apenas que algo não está mais lá. E que dói, lateja, pulsa e não deixa esquecer que, um dia, já foi inteiro.

 

Esquisito por demais acordar pela manhã e precisar ocupar o dia de tarefas importantes, de atribuições imprescindíveis, de um cotidiano que não faz muito sentido, somente para passar o tempo, enquanto algo não acontece. Algo que não se sabe.

 

Lá pelo meio da tarde, quando as maritacas fazem algazarra e o dourado toma das folhas das árvores, nos damos conta da distração que foi o dia e do cansaço, sem muita explicação, sem exercícios, sem trabalho pesado, que se abate sobre nossos ombros. Um peso sem dor. Uma dor sem agonia. Uma agonia familiar, acostumada a incomodar sem muito estardalhaço.

 

Casa. Família. Cachorro. Noite. Novela. Internet. Mobília. Retratos. Velhas músicas e antigos livros. Mesmo endereço. Triste sina de passarinho.

 

Quem sabe não me bata à porta, dia desses, a simples libertação, numa surpresa que me traria alguma paz?

 

Não há como ter paz sem arrancar o espinho. Esse que fica cutucando a ferida de propósito. Essa gaiola de concreto, imposta pelo capricho do espinho que espeta e também se fere, pela simples necessidade de se fazer presente em dor.

 

Dia desses há de bater à porta a liberdade: azul, definitiva, suave e perfumada...

 

 

Hora de acordar e perceber que o dia já vai adiante, tantas coisas por fazer, o tempo urge, ruge e foge. Não era sonho mais uma vez. Preciso preparar o café da manhã do meu filho.

 

****************


Publicado por Lílian Maial em 22/05/2013 às 00h04
 
21/02/2013 17h07
NATURALMENTE

NATURALMENTE

®Lílian Maial

 

De súbito, a pele cobriu-se de nódoas, tornou-se áspera, escurecida, com rachaduras. Imaginou uma série de doenças, exposições a materiais os mais diversos. Nada sentia, a não ser uma necessidade premente de sol. Ele a revigorava! Estava viva! Mas aquela pele...

Depois foram os cabelos. Uns fios esverdeados, bem no meio da franja densa, davam-lhe um aspecto jovial, com certo toque “punk”. Criou imediatamente penteados sofisticados, exóticos, fazia sucesso por onde passava.

Até aí, tudo bem. Só que, tempos depois, começaram a brotar raízes de seus pés. Logo no início, conseguia esconder nos sapatos. Em pouco tempo, no entanto, onde encostasse ficava grudada, enraizada. Precisava se movimentar o tempo todo.

Entrou num misto de curiosidade, desespero e orgulho. Estava frondosa! Os braços iam esticando e afinando, galhos e mais galhos de envolver, alguns cipós pendurados. Jogava-os para o lado, num ar “blasé”. A cabeleira clorofilada caía-lhe pelo pescoço, vinha uma imensa necessidade de oxigenar, fotossintetizar, orvalhar!

De suas veias jorrava seiva. De seu púbis nasciam botões de flor. Desejo intenso de polinização. Certo dia, um beija-flor atrevido roçou-lhe as coxas e sugou e sugou e sugou. Não cabia em si de felicidade! De cada beijo da esplendorosa ave, um fruto nascia-lhe do ventre. Frutos e mais frutos, cada qual mais suculento.

Completa e plena fixou morada. Nunca mais se soube dela. Há quem diga que, debaixo daquela árvore, quem adormece sonha sementes.

 

******************


Publicado por Lílian Maial em 21/02/2013 às 17h07
 
31/01/2013 12h44
HUMORES

 

HUMORES

® Lílian Maial

 

 

Tenho que reconhecer que meus humores são os maiores responsáveis pela minha percepção do estado das coisas. Estou sempre em alerta, à espera, alimentando a visita do inesperado, aquele alumbramento, que enche o coração e não deixa brecha para o tempo.

Há dias de aguardar em paz, de cuidar do espaço, como quem prepara a morada do novo habitante. Em outros, porém, percorre a espinha uma sofreguidão de anseios, uma premência de vontades, no fundo, um vazio pulsando ocupação. São eles, os humores, neurotransmissores, ou seja lá que nome tenham!

Sou assim desde criança. Mamãe dizia que era “bílis”. Papai entendia melhor, tinha as mesmas sensações, permeadas por rompantes, que a minha infantilidade não permitia.

Desde o primeiro momento, quem sabe a visão da luz, no parto, ou, mais adiante, a saciedade do aleitamento, o que importa é que esse encantamento se repita, que se eternize. Possivelmente eu tenha descoberto a origem do significado de saudade. Ou, até mesmo, o êxtase da droga, sem nunca tê-la experimentado. Não seria o amor – essa satisfação da saudade – a mais potente e viciante droga?

Meu corpo precisa mais e mais desse sal, desse princípio ativo que me causa irrequietude e preenchimento.

Meu peito se inunda dessa química toda, que faz com que eu não esqueça, que eu vibre, que eu bombeie energia.

Minha mente explode nessa poesia, que racha as comportas e transborda de mim e em mim.

Hoje é um desses dias de colecionar versos e rasquear ideias.

 

********************


Publicado por Lílian Maial em 31/01/2013 às 12h44
 
29/01/2013 21h08
NÃO CONSIGO DAR UM TÍTULO A TANTA DOR

 

Não consigo dar um título a tanta dor

   Lílian Maial

 

“A poesia está ferida.
Versos se negam a soletrar passarinhos,
rimas queimam folhas em branco, 
tudo é escombro.
O riso da letra deu lugar ao lamento
e a dor é insuportável.
Nem o silêncio é conforto!
Um céu cinzento de chuva e de fumaça,
confusão imiscível na manhã.
Um poema ardeu meu peito.

Um adeus lambeu a canção.

Réquiem para os meninos sem amanhã.”

                        – Lágrimas de Santa Maria –

 

 

Estou até agora tentando entender a mistura louca dos meus sentimentos, diante dessas 234 mortes no incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Num primeiro momento, lamentei, como qualquer pessoa que ouve uma notícia terrível de morte traumática, como: incêndio, afogamento, esmagamento e afins. Logo me coloquei no lugar das mães desses jovens, mãe que sou de adolescentes, e pude avaliar a dor do nunca mais. Nunca mais os sorrisos, o cheiro da pele, os beijos despretensiosos na hora de sair, o café da manhã preparado com amor e orgulho, as tardes de domingo no sofá, comendo pipoca e assistindo a filmes B. Nunca mais o futuro, festas de formatura, casamentos, netos imaginados, visitas, aniversários, Natais, nada! Um vazio imensurável tomou conta de mim. O que seria da minha vida sem meus filhos, assim, de repente? Então veio o sentimento humano de alívio de não terem sido os meus.

Logo a seguir, uma vergonha se apossou do meu coração. Vergonha de ter sentido alívio. De ter preferido que fossem os filhos dos outros. Uma reedição, em pensamento, da “escolha de Sofia”. Será que é natural, que é humano? Sim, é, eu sei, mas é tão solitário esse sentimento! Coloca-nos tão sozinhos no mundo e, ao mesmo tempo, tão iguais! Não houve pai ou mãe que não tenha sentido a mesma coisa.

Aí vieram os comentários nas redes sociais, de tudo que é tipo, expondo feridas, recalques, fanatismo e mau gosto, como também solidariedade, união, orações e poesia. 

Discussões sobre quem seria o responsável: se o dono da boate, os seguranças, a banda que se apresentava. Quem, além dos órgãos de fiscalização? Sim, porque todo cidadão contribui com impostos de todos os tipos, para a garantia de sua segurança, que inclui a fiscalização de todo e qualquer estabelecimento comercial, público ou privado, de diversão, bens e serviços.

Acidentes em barcos de turismo, em parques de diversão, encostas, estradas, em edificações... Quantas mortes já não houve por falta de fiscalização e superlotação? Basta lembrarmo-nos do “Bateau Mouche”, dos desabamentos de edifícios, de jovens projetados de brinquedos de parques de diversão e tantas outras mortes evitáveis, se cada um cumprisse seu dever.

Cai um avião, culpa do piloto. Morre criança num hospital, culpa do médico que faltou ao plantão (e vinha faltando havia meses). Desaba edifício, culpa do mestre de obras. Incêndio na boate e agora vão querer culpar a banda, que fazia esse tipo de espetáculo em todas as casas de show nas quais se apresentavam. Será que ninguém sabe que a responsabilidade de autorizar o funcionamento é do governo? E a fiscalização dos bombeiros? E o alvará vencido? E a superlotação? Onde está a fiscalização? E porque não interditaram antes? Como pode um estabelecimento, uma casa noturna, não ter uma saída de emergência, uma sinalização, uma saída nos fundos, e receber autorização de agentes do governo para funcionar? Simples: porque ninguém se importa.

Agora, certamente, vão chover denúncias de boates irregulares por todo o país. Casas noturnas serão fechadas, numa dramatização de fachada, com alguns bodes expiatórios, até que tudo caia novamente no esquecimento, como tantas outras tragédias que nosso povo já vivenciou, muitas, até hoje, sem solução para os que ficam, como os inúmeros desabamentos noticiados.

E o contribuinte pagando e pagando, acreditando-se seguro. Ninguém está seguro em lugar nenhum! E nós todos vamos esquecer, em poucas semanas ou meses. Só não vão esquecer - jamais - os pais desses jovens, que viram seus filhos privados do amanhã.

Esse último sentimento – o da culpa pelo esquecimento – trago no peito, reavivado, em chama ardente, a cada nova desgraça, que me relembra do quanto sou humana, imperfeita e assustada com minha própria impotência, sem a menor condição de proteger sequer a mim, que dirá aos meus!

Não, não consigo dar um título a tanta dor, tanta negligência, tanta injustiça, tantos pesos e tantas medidas diferentes pela vida! Eu, como eles, só queria dançar pela noite, lavar a alma de tanta juventude e, quem sabe, ver o nascer do sol.

 

                               *****************************

 

 


Publicado por Lílian Maial em 29/01/2013 às 21h08



Página 3 de 37 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 » [«anterior] [próxima»]



Site do Escritor criado por Recanto das Letras
 
Tweet