Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
29/01/2013 21h08
NÃO CONSIGO DAR UM TÍTULO A TANTA DOR

 

Não consigo dar um título a tanta dor

   Lílian Maial

 

“A poesia está ferida.
Versos se negam a soletrar passarinhos,
rimas queimam folhas em branco, 
tudo é escombro.
O riso da letra deu lugar ao lamento
e a dor é insuportável.
Nem o silêncio é conforto!
Um céu cinzento de chuva e de fumaça,
confusão imiscível na manhã.
Um poema ardeu meu peito.

Um adeus lambeu a canção.

Réquiem para os meninos sem amanhã.”

                        – Lágrimas de Santa Maria –

 

 

Estou até agora tentando entender a mistura louca dos meus sentimentos, diante dessas 234 mortes no incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.

Num primeiro momento, lamentei, como qualquer pessoa que ouve uma notícia terrível de morte traumática, como: incêndio, afogamento, esmagamento e afins. Logo me coloquei no lugar das mães desses jovens, mãe que sou de adolescentes, e pude avaliar a dor do nunca mais. Nunca mais os sorrisos, o cheiro da pele, os beijos despretensiosos na hora de sair, o café da manhã preparado com amor e orgulho, as tardes de domingo no sofá, comendo pipoca e assistindo a filmes B. Nunca mais o futuro, festas de formatura, casamentos, netos imaginados, visitas, aniversários, Natais, nada! Um vazio imensurável tomou conta de mim. O que seria da minha vida sem meus filhos, assim, de repente? Então veio o sentimento humano de alívio de não terem sido os meus.

Logo a seguir, uma vergonha se apossou do meu coração. Vergonha de ter sentido alívio. De ter preferido que fossem os filhos dos outros. Uma reedição, em pensamento, da “escolha de Sofia”. Será que é natural, que é humano? Sim, é, eu sei, mas é tão solitário esse sentimento! Coloca-nos tão sozinhos no mundo e, ao mesmo tempo, tão iguais! Não houve pai ou mãe que não tenha sentido a mesma coisa.

Aí vieram os comentários nas redes sociais, de tudo que é tipo, expondo feridas, recalques, fanatismo e mau gosto, como também solidariedade, união, orações e poesia. 

Discussões sobre quem seria o responsável: se o dono da boate, os seguranças, a banda que se apresentava. Quem, além dos órgãos de fiscalização? Sim, porque todo cidadão contribui com impostos de todos os tipos, para a garantia de sua segurança, que inclui a fiscalização de todo e qualquer estabelecimento comercial, público ou privado, de diversão, bens e serviços.

Acidentes em barcos de turismo, em parques de diversão, encostas, estradas, em edificações... Quantas mortes já não houve por falta de fiscalização e superlotação? Basta lembrarmo-nos do “Bateau Mouche”, dos desabamentos de edifícios, de jovens projetados de brinquedos de parques de diversão e tantas outras mortes evitáveis, se cada um cumprisse seu dever.

Cai um avião, culpa do piloto. Morre criança num hospital, culpa do médico que faltou ao plantão (e vinha faltando havia meses). Desaba edifício, culpa do mestre de obras. Incêndio na boate e agora vão querer culpar a banda, que fazia esse tipo de espetáculo em todas as casas de show nas quais se apresentavam. Será que ninguém sabe que a responsabilidade de autorizar o funcionamento é do governo? E a fiscalização dos bombeiros? E o alvará vencido? E a superlotação? Onde está a fiscalização? E porque não interditaram antes? Como pode um estabelecimento, uma casa noturna, não ter uma saída de emergência, uma sinalização, uma saída nos fundos, e receber autorização de agentes do governo para funcionar? Simples: porque ninguém se importa.

Agora, certamente, vão chover denúncias de boates irregulares por todo o país. Casas noturnas serão fechadas, numa dramatização de fachada, com alguns bodes expiatórios, até que tudo caia novamente no esquecimento, como tantas outras tragédias que nosso povo já vivenciou, muitas, até hoje, sem solução para os que ficam, como os inúmeros desabamentos noticiados.

E o contribuinte pagando e pagando, acreditando-se seguro. Ninguém está seguro em lugar nenhum! E nós todos vamos esquecer, em poucas semanas ou meses. Só não vão esquecer - jamais - os pais desses jovens, que viram seus filhos privados do amanhã.

Esse último sentimento – o da culpa pelo esquecimento – trago no peito, reavivado, em chama ardente, a cada nova desgraça, que me relembra do quanto sou humana, imperfeita e assustada com minha própria impotência, sem a menor condição de proteger sequer a mim, que dirá aos meus!

Não, não consigo dar um título a tanta dor, tanta negligência, tanta injustiça, tantos pesos e tantas medidas diferentes pela vida! Eu, como eles, só queria dançar pela noite, lavar a alma de tanta juventude e, quem sabe, ver o nascer do sol.

 

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Publicado por Lílian Maial em 29/01/2013 às 21h08
 
20/12/2012 18h04
Maia versus Maial (ou: “acostumados ao fim do mundo”)

 

Maia versus Maial (ou: “acostumados ao fim do mundo”)

                                                                                                                                     ®Lílian Maial

 

Com a proximidade do “fim do mundo” na previsão dos maias, venho pensando na quantidade de fins de mundos que minha família - Maial - já enfrentou, sempre recomeçando, muitas vezes do zero.

Meus ancestrais do lado de papai – origem desse meu Maial – eram da Síria, mais precisamente de Damasco, e vovô veio muito jovem, ainda, rapazote, para o Brasil, a fim de se casar com vovó, menina de quinze anos, a quem nunca vira na vida, que residia em São Luís do Maranhão, também descendente de árabes (filha de pai sírio e mãe de origem francesa).

Ao vê-la pela primeira vez, vovô se apaixonou pelo tipo faceiro, mignon, cabelos cacheados, na altura do queixo, bem diferente das sírias de cabelos negros, longos e lisos de sua terra natal.

Vovó, por sua vez, namorava (e era apaixonada) por um vizinho, e nem passava por sua cabeça casar-se com vovô. Só que esses arranjos familiares, ultrapassados nos dias de hoje, naquela época, início do século XIX, eram comuns e obrigatórios. Então, para casar, vovô logo se estabeleceu como comerciante, como todo bom árabe, com negócio de tecidos finos, como sedas e assemelhados.

Minha pequena avó se viu em maus lençóis e combinou de fugir com o namorado, que lhe deu um bolo e desapareceu, deixando vovó desolada e sem saída. Não me perguntem o paradeiro do rapaz, pois o que sei me foi contado por vovó, que nunca mais soube dele.

Casaram. Vovó não gostava de vovô, mas ele era completamente louco por ela, enchia-a de mimos, fazia-lhe todas as vontades. Mudaram-se para Teresina (Piauí) e, lá, ele desenvolveu seu negócio com um sócio, servindo à sociedade abastada do local. Prosperaram.

Quando vovó estava grávida de papai, seu segundo filho, a mãe dela contraiu tifo e ficou muito mal. Então, vovó viajou para São Luís, para cuidar de minha bisavó, que se recuperou, porém, vovó foi derrubada pela doença, aos 7 meses de gestação.

Vovô, ao saber do risco de vida de vovó, largou tudo aos cuidados do sócio e foi ficar com sua amada. Ela, felizmente, sobreviveu e voltaram para Teresina, tão logo se sentiu forte para enfrentar a viagem.

Ao chegarem, o sócio havia limpado a loja, o estoque e deixado dívidas incalculáveis, levando a família à ruína, com um filho pequeno no colo e o meu pai, que nasceu logo depois de chegarem. Um verdadeiro “fim do mundo”.

E aí vem a saga de recomeço dos Maial. Vovô pegou a mulher e os dois filhos pequenos e veio para o Rio de Janeiro, tentar a vida do início. Conseguiu trabalhar numa loja de tecidos, agora não como dono, mas como simples vendedor, para dar sustento à família e, aos poucos, foi juntando aqui e ali, com paciência, dedicação e afinco. Depois de um bom tempo como empregado, conseguiu comprar uma barraca de feira e foi vender roupas, que era seu ponto forte. Acabou expandindo o negócio, com um tino incomparável para o comércio, a ponto de poder comprar apartamento e dar bom estudo aos (agora três) filhos.

Bem mais tarde, casado e com filhos, meu pai também veio a perder tudo e ter de recomeçar quase do zero, e só não afundou de vez, porque mamãe trabalhava e segurou o rojão, até ele conseguir dar sua volta por cima, com muita luta e à custa de uns bons anos de sua vida. Veio a falecer precocemente do coração, mas já com a vida da família garantida.

Encurtando o assunto, toda a família Maial tem uma história particular de fim de mundo. Todos, sem exceção, tiveram diante de si, de uma forma ou de outra, em algum momento de suas vidas, um “fim de mundo”.

Portanto, onde quer que haja um fim de mundo, seja inca ou maia, maranhense, piauiense ou carioca, sempre haverá um recomeço Maial.

Feliz Mundo Novo para todos!

 

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Publicado por Lílian Maial em 20/12/2012 às 18h04
 
15/12/2012 17h35
O FIM DO MUNDO

 

 

O Fim do Mundo

                                                                      ®Lílian Maial

 

Faltam poucos para o fim do mundo, segundo o calendário maia.

Mas por que diabos nos importaríamos com o calendário maia? Os maias foram um povo de grande desenvolvimento histórico, como também o foram os egípcios, os assírios, os gregos, os etruscos, os celtas e tantos outros que, com a evolução, as guerras, as epidemias, as alterações climáticas, tenderam a sucumbir diante de novas civilizações.

Muito embora não acate o fim do mundo maia, previsto para o dia 21 de dezembro próximo, preocupa-me, sobremaneira, não o fim do mundo, mas o fim da humanidade.

Karl Marx, em "A Ideologia Alemã", afirma que um aspecto da atividade social que fundamenta a história é a tendência das pessoas a agir de forma a satisfazer as suas necessidades e, daí em diante, gerar novas necessidades. Para Marx, é o que impulsiona a contínua expansão da capacidade produtiva na civilização humana.

Já de acordo com Freud, atrás da luta de classes de Marx, ergue-se o conflito entre pai e filho, entre um clã estabelecido e um desafiador rebelde.

E no que nos tornamos, afinal? Qualquer que seja o pensador, sabemos que não há igualdade entre os seres humanos e que a motivação pode variar.

Então, Marx estaria certo: o que se quer é satisfazer as necessidades e, por conseguinte, acabamos por criar outras. Os mais jovens sempre desafiam os mais velhos e pretendem ocupar seu lugar na sociedade. Mas onde ficam: a moral, a ética, as normas sociais?

Não faz muito tempo, um homem não ocuparia o lugar numa condução, enquanto houvesse uma senhora de pé. Os pais não abandonariam os filhos ou os negligenciariam por nada. Não se permitiria o crescimento das crianças sem regras, sem horários estabelecidos, sem observação de suas companhias.

Talvez as famílias fossem mais estáveis, ou as tais necessidades vivessem ocultas sob o manto da subserviência, notadamente no caso das mulheres, que acabavam por ficar em casa cuidando dos filhos, sem o direito à mesma liberdade dos homens e à realização de sonhos e ambições.

Hoje, o que se vê é uma disputa por popularidade e oportunidade, regadas a hedonismo. Todos buscam o prazer imediato a qualquer custo, mesmo roubar (um indivíduo ou todo um povo) ou matar.

Para que fazer o bem a alguém, se, em nosso lugar, esse alguém não daria a mínima?

Esse é o pensamento atual, altamente egocêntrico, imediatista, amoral e depressivo. Acabou-se a noção de amizade, de respeito, de vida em coletividade. É esse fim de mundo que me preocupa, que me tira as noites de sono e para o qual não vejo data específica.

Fim do mundo vira piada na internet, vira minissérie de televisão, papo entre os amigos na mesa de bar. Enquanto isso, o dinheiro público é vilipendiado, crianças seguem espancadas pelos pais, idosos abandonados pelas famílias, cracolândias se multiplicando pelo mundo, jovens sem perspectiva de futuro, lares dilacerados pelo egoísmo e pela inconsequência, irmãos cultivando ódio e indiferença.

Não acredito em previsões de espécie alguma, porém, acreditava na natureza humana, o que vem ficando cada dia mais difícil.

O fim do mundo está aí, disfarçado nos risos incrédulos acerca de uma data qualquer, maquiado por luzes cada vez mais brilhantes de Natal, pelo consumismo respaldado por um 13º para inglês ver, provável opiáceo de quem não tem opção, ou que prefere não enxergar.

Assim, no dia 21 de dezembro, convido os leitores e amigos a meditarem sobre o mundo, seu fim e sua continuidade, o nosso papel nesse contexto e o que deixaremos de herança aos nossos descendentes.

Que não temamos o fim do mundo e, sim, brindemos ao seu diário recomeço, que ainda é tempo!

 

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Publicado por Lílian Maial em 15/12/2012 às 17h35
 
09/11/2012 21h12
EM ALGUM CANTO PERDIDO

EM ALGUM CANTO PERDIDO

®Lílian Maial

 

Difícil se preparar para envelhecer. Como alguém pode “envelhecer bem”, se em algum canto perdido do espelho, aquela menina se escondeu? A mocinha vincou o sorriso, a mulher deixou de impressionar com seu (en)canto e cedeu espaço para outros reflexos de novas epidermes.

Não sei de onde surgiu essa velha conhecida, que me sorri amarga, reconhecendo e estudando meus traços. No fundo, nos sabemos bem, nos tememos muito, lutamos para não sermos apresentadas uma à outra.

Ainda outro dia, a menina olhava a tudo e a todos, de baixo para cima, receava crescer, preferia se manter presa à barra da saia da mãe, sob o olhar amigo e assustador do pai. Tinha colo. Tinha futuro.

Dia desses, assim, do nada, ela desapareceu. O pai desapareceu. A mãe ficou menor. E ela ainda olha de baixo para cima, agora para os meninos, que cresceram, e também por conta do sumiço de uns centímetros, que jurava que tinha a mais.

O corpo, montanha tola, vai erodindo, perdendo a mata, aumentando os sulcos, se abrindo em fendas, criando trajetos tortuosos, buracos, manchas, retrações e aridez, agoniza na ilusão de pra sempre. Não quer deixar o vento ventar e lhe levar o sangue.

A mente, como um rio que corre para o sertão, vai estreitando, reduzindo o volume, secando, secando... Se afogando em passado.

Qualquer dia, a nova menina, vibrando no espelho, vai encontrar a que um dia já foi e ambas deverão inventar um artefato de criar sopros de vida, uns barbantes de amarrar a juventude, umas torneiras de hidratar o coração.

Deve ser estranha essa transmutação, essa coisa de procurar as outrora frondosas florestas, os traços, gostos, trejeitos nessas tenras criaturinhas. Atrás do espelho elas vivem. Dentro dos olhos elas brincam. Num lapso de tempo elas se invertem.

Assim, um dia, de repente, talvez eu desperte nela, me transporte inteira, num litígio silencioso de luz e sombra, e venha a arcar com sete anos de perseguição do tal espelho.

Na verdade, um desejo, um medo, uma inveja, uma saudade.

 

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Publicado por Lílian Maial em 09/11/2012 às 21h12
 
27/10/2012 15h04
PARABÉNS, BONDINHO DO PÃO DE AÇÚCAR!!!

PARABÉNS, BONDINHO DO PÃO DE AÇÚCAR!!!

®Lílian Maial*

 

 

Hoje é aniversário de 100 anos do bondinho do Pão de Açúcar.

Lembro-me da primeira vez que subi ao Morro da Urca, depois ao Pão de Açúcar, quando o bondinho ainda era um caixote de madeira pintado, suspenso por cordas de aço sem muita convicção, num trajeto de deixar qualquer um atônito entre a beleza da paisagem e o medo do precipício.

Era criança e subimos: eu, meus pais, meus avós paternos e minha irmã. Tenho poucas recordações dos meus avós, mas esta é uma das mais interessantes, talvez porque assustadora. Foi inesquecível!

Dali do alto tive uma sensação, que viria a se repetir todas as vezes em que lá voltei, que era um misto de liberdade e... Fé! Não sei explicar, não tem nada a ver com religião, mas uma forma de fé estranha, diferente, que tem relação com o homem e a Natureza. Não se consegue passar incólume por tanta beleza!

A ideia de onipotência já havia tomado conta de seu criador, o engenheiro Augusto Ferreira Ramos, que teve de superar o pouco caso dos incrédulos. O projeto ousado vingou, para nossa felicidade e orgulho, e nossa cidade ficou mundialmente conhecida, sendo o bondinho já usado como cenário de filme de James Bond, o eterno 007 Contra o Foguete da Morte, de 1979, com Roger Moore no papel do espetacular agente secreto, com aquele vilão acromegálico, com dentes de aço, que queria cortar os cabos do bondinho com os dentes, lembram?

E quem poderia esquecer as “Noites Cariocas”, no Morro da Urca, com shows e festas incríveis?

Parabéns, bondinho! Nós, cariocas, agradecemos por mais este cartão-postal da nossa cidade que, por sua causa, ficou ainda mais Maravilhosa!

 

*Lílian Maial é carioca da gema e apaixonada por sua cidade

 

 

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Publicado por Lílian Maial em 27/10/2012 às 15h04



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