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![]() O SEIO ESQUERDO
Data: 30/04/2007
Créditos:
Texto: O Seio Esquerdo - Lílian Maial
Voz: Lílian Maial Edição: Lílian Maial O SEIO ESQUERDO
Lílian Maial Aconteceu. Ninguém espera E, na primavera, Foi-se o seio esquerdo. Foi-se o toque, Ficou a sensação fantasma Foi-se o alimento, Ficou o vazio no peito. Como ser mulher, sem o seio esquerdo? Como ser mãe, sem a mama esquerda? Como ser profissional, sem o outro par? Como se olhar no espelho, nua? O seio direito, encabulado, Só e pendurado, Emoldurando o luto Do parceiro canhoto. Está faltando o outro. São dois, Originalmente dois. Há que ser dois. Nunca mais seus dedos Apertando a carne macia e rosada Nunca mais sua boca A brincar de trincar e arrepiar Nunca mais a dança sensual Dos pares no banho E entre lençõis de cetim. Há um imenso vazio Bem maior que a mama Que atinge camadas profundas Da própria natureza fêmea. Há a ausência constante Lembrada todo o tempo Pelo traço da cicatriz Dessa ferida que não fecha. Há a dor, os ductos, os lutos Mágoa infiltrante, ingrata, infeliz Dias vividos sem perceber E para quê viver? Olhos que nunca repararam Agora recusam-se a olhar Não tem remédio Não tem escolha Tem alopécia, náusea e dor Tem quimioterapia Tem agonia Solidão de espinho e flor Tão falso o enchimento Disfarça a roupa Como peruca da alma Que dribla olhares piedosos De mulher barbada de circo Que extirpa seus próprios caroços. Os dias arrastados, as horas contadas Quando volta ao normal? Quando se acorda do pesadelo? Ou tentar esquecê-lo... É tão desigual, tão caolha Fica sem sentido, tão velha Um robusto, imponente, desejável Outro, um traço doente, indelével, lamentável. Luta diária e desanimada Para sobreviver – corpo sem jeito Mulher sem peito, que cala o grito Tempo finito, seio bonito Que se foi. ************* Do livro: "Enfim, renasci!" Ed Impetus - 2000
Enviado por Lílian Maial em 22/04/2007
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