Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Textos


A DOR DA MORTE
Lílian Maial


Tem morte morrida e tem morte matada.
A morte matada é coisa de formiga
esmagada na mesa da cozinha,
de barata pisada, de pedra de atiradeira.
Tem dor de passarinho mudo,
dor de pena arrancada do rabo da arara,
dor de gaiola aberta que deixou alguém fugir.

Tem morte morrida
de velho cansado de trabalho e de sono,
de vó que não lembra mais quem é,
de tanto que viveu e se lambuzou,
hora de nanar muito,
de sonhar com travesseiros de pra sempre.

A dor da morte é só o medo dela.
Ela não dói de verdade,
ela é o liga e desliga na parede.
Tá aceso e, de repente, apaga.
Ou tá apagado e, de repente acende
(e quem vai entender isso?).

A dor da morte é essa saudade danada,
vontade de ir pra lá pra onde eles foram,
só pra sentir o calor do abraço
e o macio do colo.
Quem fica é que sente dor,
uma dor de não entender que tava na hora.

Tudo tem hora:
hora de acordar, hora de comer,
de tomar banho, de estudar,
hora de TV, hora de cinema,
de videogame e de escovar os dentes.
Tem hora de médico, de dentista,
de aula e de sorvete.
Hora de amigo, hora de amor,
hora de brigar e trocar de bem.
E tem hora de dormir também!

Tudo controlado no relógio,
tudo certinho e com ponteiro.
Só pra morer nao tem despertador.
Mas, também, que ideia!
Quem vai despertar pra dormir?

É bom não saber as regras desse jogo da hora de ir.
A gente vai ficando e esquecendo.
Quando chegar a hora, nem vai saber,
nem vai lembrar,
e já vai estar tão cansado,
que vai gostar de fechar os olhos
e só abrir quando acordar.

A dor da morte é a dor de dormir.
Onde dói mais no seu soninho?

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Lílian Maial
Enviado por Lílian Maial em 21/08/2012
Alterado em 21/08/2012
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