Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
09/11/2012 21h12
EM ALGUM CANTO PERDIDO

EM ALGUM CANTO PERDIDO

®Lílian Maial

 

Difícil se preparar para envelhecer. Como alguém pode “envelhecer bem”, se em algum canto perdido do espelho, aquela menina se escondeu? A mocinha vincou o sorriso, a mulher deixou de impressionar com seu (en)canto e cedeu espaço para outros reflexos de novas epidermes.

Não sei de onde surgiu essa velha conhecida, que me sorri amarga, reconhecendo e estudando meus traços. No fundo, nos sabemos bem, nos tememos muito, lutamos para não sermos apresentadas uma à outra.

Ainda outro dia, a menina olhava a tudo e a todos, de baixo para cima, receava crescer, preferia se manter presa à barra da saia da mãe, sob o olhar amigo e assustador do pai. Tinha colo. Tinha futuro.

Dia desses, assim, do nada, ela desapareceu. O pai desapareceu. A mãe ficou menor. E ela ainda olha de baixo para cima, agora para os meninos, que cresceram, e também por conta do sumiço de uns centímetros, que jurava que tinha a mais.

O corpo, montanha tola, vai erodindo, perdendo a mata, aumentando os sulcos, se abrindo em fendas, criando trajetos tortuosos, buracos, manchas, retrações e aridez, agoniza na ilusão de pra sempre. Não quer deixar o vento ventar e lhe levar o sangue.

A mente, como um rio que corre para o sertão, vai estreitando, reduzindo o volume, secando, secando... Se afogando em passado.

Qualquer dia, a nova menina, vibrando no espelho, vai encontrar a que um dia já foi e ambas deverão inventar um artefato de criar sopros de vida, uns barbantes de amarrar a juventude, umas torneiras de hidratar o coração.

Deve ser estranha essa transmutação, essa coisa de procurar as outrora frondosas florestas, os traços, gostos, trejeitos nessas tenras criaturinhas. Atrás do espelho elas vivem. Dentro dos olhos elas brincam. Num lapso de tempo elas se invertem.

Assim, um dia, de repente, talvez eu desperte nela, me transporte inteira, num litígio silencioso de luz e sombra, e venha a arcar com sete anos de perseguição do tal espelho.

Na verdade, um desejo, um medo, uma inveja, uma saudade.

 

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Publicado por Lílian Maial em 09/11/2012 às 21h12
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