Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
09/01/2009 19h27
PALESTINA OU ISRAEL?

Palestina ou Israel?

                                                                 ®Lílian Maial 


 
É um círculo vicioso, sempre a mesma ladainha, o mesmo choro contido, o ranço de outras épocas e antigas devastações. Uns poucos e tantos insistindo na salvação da raça humana, na paz entre os povos, na saída para um mundo melhor, enquanto sabemos perfeitamente que é da natureza humana a destruição.

Desde priscas eras já conhecíamos a destruição, muitas vezes disfarçada de defesa e autopreservação. O homem descobriu o veneno, a erva, o fogo, o ferro, o aço, a espada, a pólvora, a bomba, a indiferença. A ciência avança, inventa a doença e a cura, aumenta a longevidade, enquanto crianças morrem de fome, apenas por ter nascido filho de pais que pensam diferente. Onde é que já se viu?
 
Fala-se em inserção social, em excluídos, porém dividimos o mundo em primeiro, segundo, terceiro... Revoltamo-nos com as idéias arianas, ao mesmo tempo em que criticamos e menosprezamos as diferenças. Palestinos e Israelenses, que diferença eles têm? Será que a visão da dilaceração de um filho dói menos em algum deles? Será que a perda de tudo o quanto cultivam nos lares tem importância menor para algum deles? E por que outros povos têm de tomar partido e municiar melhor um dos lados? O mundo inteiro carrega duas bandeiras inimigas? O que é tudo isso?

A querida amiga Rosa Pena ainda anseia pela volta dos girassóis. O amigo poeta Nathan de Castro lamenta a morte da poesia de amanhã. Já um outro amigo, delegado de polícia, apelidou a área de risco no entorno de sua delegacia como “Faixa de Gaza”, e é quando lembramos que temos Gaza também aqui, no Rio de Janeiro!

E eu? Eu que sempre fui tão alienadamente otimista, tão intensamente apaixonada por gente, tão solidária e defensora dos direitos e dos injustiçados, me vejo em meio a uma teia de destruição e espanto, de loucura e conformismo, de mudança que apenas maquia.

A Mãe Natureza já mostrou seu desprezo pelo homem. O homem - que criou um deus à sua imagem e semelhança, que venera ídolos de purpurina, perdidos em seu próprio brilho, que abandona o semelhante para alcançar benesses. O homem - que inventou o sorriso, a poesia, o amor e a eternidade, que usufruiu das endorfinas da paixão e do altruísmo, o mesmo homem que manufatura a desgraça, a dor e o desamor.

O homem deveria ser mulher. Deveria ser mãe, para saber a ausência de sentido da morte de um filho, seja por qual razão for.   O homem deveria parir seu ódio em dor, e talvez seja isso o que já vem fazendo, destilando peçonha extraída de almas poluídas de ambição, arrogância e razão. Eu sou o rei, sou o dono, sou o maior, o mais rico, o mais forte, o mais bonito, o mais-mais! E que se danem os infelizes inferiores!

Estou por aqui com a Natureza, esta, sim, menina perversa, que permite que sua criação destrua o que ela mesma cria! 

Talvez seja tudo uma grande piada. O mundo é uma piada. A vida é uma piada. Se pensarmos bem, viemos todos do nada e vamos para lugar nenhum, e o que fazemos ou deixamos de fazer pouco importa a quem quer que seja. É assim, sempre foi assim e sempre será. E enquanto aguardamos o nosso desaparecimento, temos a opção de construirmos uma vida em conjunto, ou destruirmos o que não nos interessa. E começam as intrigas, as diferenças, as lutas, as guerras, as mortes, as lágrimas.

Como disse o Nathan: “Não sei mais o que dizer... Ninguém escuta”.

A mãe que lamenta seu filho é a mesma que apedreja os filhos da vizinha. O filho que mata outro filho, que fará chorar outra mãe que, de ódio, incita outros filhos a vingarem o seu. Parece conhecido? E é. Isso remonta ao início dos tempos, e nunca acabará. Mata-se por ganância, por dinheiro, por inveja, por despeito, por deus. Por Deus!

“Ama o próximo como a ti mesmo”. Será isto? Será que não nos amamos e, no fundo, somos todos suicidas sem coragem, sendo mais simples matar o outro? Já temos tão pouco tempo para a vida, e ainda precisamos abreviar? Estranho paradoxo é o homem, que busca a longevidade e, ao mesmo tempo, maneiras mais arrojadas de destruição em massa.

De poeta e louco, todos têm um pouco. Onde foi que eu errei?
 
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Publicado por Lílian Maial em 09/01/2009 às 19h27
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01/01/2009 16h00
A RESSACA DO DIA PRIMEIRO – VERSÃO 2009
® Lílian Maial


Hoje é o primeiro dia do ano de 2009! Ano regido por Oxóssi, ano de prosperidade.
Diferente dos anos anteriores, não quis fazer "balanço" do ano que se findava. Pela primeira vez, tenho a sensação de continuidade. Não houve a tradicional “quebra” de um ano para outro, nem as não menos tradicionais “promessas” para o ano que se inicia.

O ano de 2008 foi de reorganização e de colher louros por todos os sacrifícios e desacertos dos anos anteriores. Apesar da crise econômica que se abateu sobre o mundo nos últimos meses, não senti o ranço de finais de ano com tristeza e melancolia. Ao contrário, esse mês de dezembro me trouxe recordações alegres e paz interior – uma bênção, por sinal.

Acabei o ano de 2008 com a sensação de volta por cima, de missão cumprida, e uma imensa necessidade de restaurar amizades que não pude intensificar na correria do dia-a-dia, e que acabei deixando amornar no tempo.

Arrumei minha casa, tentei consertar o que estava enguiçado (por dentro e por fora, em casa e em mim), tomei um bom banho de descarrego, e me reuni com a família, para uma simbólica e simples passagem de ano, recebendo os bons fluidos da corrente de alegria e esperança dos sorrisos dos meus queridos.

Não fui à praia, mas senti as ondas positivas, num banho de energia para 2009.
 
Não faltou o consagrado brinde com champanhe à meia-noite, os fogos de artifício vistos da minha varanda, os abraços e felicitações dos familiares, e a certeza de que tinha ali, junto a mim, o que havia de mais importante para desejar em qualquer ano ou momento que fosse.
A poesia do cheirinho dos meus filhos me invadiu. As mordidinhas nos pescocinhos risonhos e a felicidade dos abraços sinceros certamente farão meu 2009 muito especial!
 
Todos ainda dormem. Só eu acordei e agradeci à vida mais um dia tão maravilhoso, de sol e ventos de harmonia. A preguicinha me invadiu, porém fui checar e cheirar a casa toda, como de costume, beijar as crianças sonolentas e saudar e retribuir dos amigos os votos enviados de felicidade para 2009.
O sol é realmente carioca, e veio, com suavidade, combater a ressaca do dia primeiro!

 
Agradeci novamente a dádiva de ter meus filhos junto a mim, minha mãezinha, já bem idosa, e os novos e muito bem-vindos amores, como, por exemplo, a família da minha futura nora adorável!

Curiosamente, neste ano, as ruas não ficaram desertas, e mais vizinhos ficaram em suas casas. Assim, não consegui voltar para a cama, num misto de excitação e ansiedade.
Também não tive a sensação nostálgica de despedida de um ano que se foi, muito ao contrário, sobreveio a certeza de continuidade, de calor humano, de fraternidade, mesmo com as notícias nos jornais teimando em dizer o oposto.

 
Como no ano anterior (talvez daí a impressão de continuidade), um imenso orgulho brotou no canto da boca, com um sorriso inexplicável de Fênix. Fiquei admirada de mim mesma e da indiscutível vontade e capacidade de alçar vôos.

Amigos leitores, nada de tristezas ou sentimentos negativos! Não para nós! Não para este ano!
Somos um povo resiliente e otimista, precisamos nos unir para angariar forças contra qualquer crise, como guerreiros dispostos a defender a bandeira da boa-vontade, da fé no ser humano e na preservação do nosso meio-ambiente, sem deixarmos de lutar pelo que acreditamos.

Sei que 2009 é um ano de esforço coletivo, para que as conquistas tenham um sabor de nosso, que a ultrapassagem de cada obstáculo traga a certeza de equipe, e que os limites nos façam repensar direitos e deveres para conosco, com o próximo e com a natureza.

Só conseguiremos a paz se juntos caminharmos em direção aos nossos sonhos, construindo uma vida melhor em comunidade, comungando com a tolerância e o afeto.

Não prometi nada para este ano de 2009, porque nada poderá ser pensado individualmente. Precisamos surpreender o outro, tomar atitudes fraternas e de realização de planos comuns, com ânimo, alegria e vitalidade.

Continuo agradecendo por tudo o que me aconteceu de positivo, aprendendo com o que foi negativo, e trabalhando para crescer e valorizar o que realmente tem importância.


Está na hora de deixarmos de lado o jeitinho, a arrogância e a inércia, e partirmos para uma vida de muito mais com apenas um pouco, passarmos a agenda a limpo, abraçarmos quem não pudemos, esquecermos o que deve ser esquecido, e ligarmos mais para os que nos são caros.
É tempo de nos perdoarmos nossas ausências e silêncios, e retomarmos os caminhos de amizade e amor.

Posso parecer piegas, mas as palavras me traem porque me conhecem e dominam, têm uma autonomia que conquistaram a duras letras, e já saltam sozinhas para o papel, sem pedir licença. Eu e minhas letras nos tornamos um só!


O ano que passou - bissexto – trouxe certa magia na longa viagem de 366 dias, com muitos símbolos e uma polissemia típica dos poetas sonhadores.

Este ano deverá ser mais lúcido (mas não menos lúdico), a começar por uma ressaca que não houve...

Feliz 2009 para todos nós!

 
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Publicado por Lílian Maial em 01/01/2009 às 16h00
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28/12/2008 17h27
CARTA ABERTA A 2009
®Lílian Maial 
 

Todo ano, costumo fazer uma carta ao ano vindouro, uma espécie de balanço bem-humorado e esperança de um mundo melhor, de uma vida mais feliz. Otimista, sempre aguardava ansiosamente pelo “novo ano”, como se algo fosse mudar realmente, apenas por estar marcado no calendário.
Desta vez está diferente, não esperei até o dia 31.

Acordei hoje – dia 28 de dezembro – e me deparei com a primeira página do jornal anunciando que Israel fez o pior ataque a Gaza dos últimos 20 anos (não sem motivos, claro), que a “bolsa” no Brasil perdeu US$835 bilhões em 2008, que a reforma ortográfica vai mudar tudo, com gastos astronômicos para empresas e material didático, que o novo prefeito do Rio pretende mudar a cor da Prefeitura, modificando logos, uniformes, fardas da Guarda Municipal e todos os impressos, com gastos fabulosos, apenas para descaracterizar o governo que está acabando, que o tráfico, milícias e policiais continuam morrendo e matando, que um advogado foi assassinado com um tiro na cabeça, ao sair de um caixa eletrônico e reagir (?) a um assalto (como se a culpa da morte fosse dele, que não deveria ter reagido).

Como desejar um novo ano feliz, se a ordem é não reagir? Parece que o mundo, ao menos o que nos chega dele, já não reage mesmo a mais nada, ou reage com ações previsíveis, numa disputa de bem e mal, certo e errado, claro e escuro, macho e fêmea.

Como ter forças e energia para mais uma crise, se sequer chegamos a sair de uma crise eterna, se nossos valores foram todos deturpados, e por nossa culpa, que deixamos e participamos das escolhas?

Dois mil e sete foi um ano complicado, 2008 prometia renascer das cinzas, mas o que se viu é que o mundo todo está envolto em cascas, em vendas, em pseudo-casulos. Os projetos de vida tentaram sair devagarzinho da gaveta, e alguns até tomaram pé, quando, de repente, vem a tal da crise mundial, com máscaras de monstro, com ameaças de apertos maiores ainda. Mal sentíamos um gostinho de que poderia dar certo e vem a enchente de desilusão.

Tadinho de 2009! Vai ter de fazer malabarismos para sobreviver a tantos baques, tantas perdas, tanta falta de valores humanitários que assola o mundo, tanta doença! Haja resiliência!

Continuo tentando comunhão com a Mãe Natureza e suas cores e cheiros, mas, a cada dia, fica mais difícil entender a existência.  Valores como família, solidariedade, fraternidade, boa fé, estão todos mesclados com a desconfiança, a mentira, a falsidade, as segundas intenções.

Está bem, está bem, estou viva, ainda tenho saúde, tenho meus amados perto de mim, tenho a poesia... Êpa! Então tenho tudo o que me importa, estou reclamando de quê?

Gente! É isso! Está tudo aí! Dois mil e nove vem fresquinho, como mais um ano para tentarmos fazer dar certo! Temos obrigação de buscar a felicidade, e nossa felicidade só acontecerá se nosso igual estiver bem. O investimento que mais dá lucro não é nas bolsas e no dinheiro virtual, mas no homem, na sua educação, na sua força de trabalho, na sua capacidade de ser solidário e generoso.

Abaixo a mesquinhez, a sordidez, a pequenez! Fora os interesseiros, os traficantes de benesses, os milicianos da esperteza! Precisamos fazer valer nossos direitos e nossa força! Afinal, somos maioria! Quantos vocês conhecem que estão insatisfeitos com as guerras, as falcatruas, a manipulação, a prevaricação e tantas mazelas públicas? Não somos maioria? Claro que somos! Mas fomos criados para temer, para calar, para dar jeitinho, para esperar. Esperança sempre foi o lema, só que uma esperança acomodada.

Nessa época do ano, temos o costume de fazer balanços, promessas e metas para o ano que se inicia, porém este ano decidi fazer diferente, e checar o que prometi no ano passado e que cumpri. O que não cumpri, fica para 2009. Vejamos:

- começar uma dieta pobre em calorias e rica em calor humano: diria que enriqueci as calorias, ao mesmo tempo que extrapolei no calor humano. Saldo: engordei, então agora, para 2009, resta manter o calor humano e combater as calorias...

- fazer um check-up no coração e cuidar daqueles sentimentos que deixei isquêmicos ou anêmicos: diria que venho num processo lento de oxigenação, que deverá se perpetuar em 2009...

- praticar mais exercícios de afeto, abraçando e beijando os amores – amigos, filhos, e todas as pessoas que não pude em 2007, e mais um pouco as que já abracei: isso foi um imenso acerto, e foi tão bom,. Que já providenciei para que 2009 seja o ano dos reencontros e resgates;

- estimular as cordas vocais, cantando todas as músicas que conseguir: nossa! Estimulei tanto, cantei tanto, que sobreveio uma rouquidão que não tem gengibre que dê jeito (agora tenho de cuidar da voz);

- estimular a circulação, dançando nas nuvens, na chuva, na praia, na pista, na vida: esse item fiquei devendo, mais por conta de artrose...

- estimular os músculos faciais, sorrindo e gargalhando mais, e chorando um pouquinho, se a emoção for forte, mas sofrer bem menos: esse quesito também eu consegui, mesmo à custa da Santa Fluoxetina!

 - cuidar do coração, para que ele pulse e ame mais que nunca, pois só o amor pode reerguer um planeta, uma nação, um bairro, um homem: nesse tópico eu falhei peremptoriamente, até porque não depende só do meu coração, mas que venho cuidando, venho.

Bem, meu caro 2009, não tenho uma visão tão otimista, porque ando muito decepcionada com o ser humano. Contudo, vou romper o ano com o pé direito (se não estiver engessado com alguma rotura de tendão), usar uma calcinha vermelha para atrair a paixão (nem que seja pela vida), abrir uma garrafa de champanhe (que pode ser a última por um bom tempo) e fechar os olhos e me concentar em pensamentos e sentimentos positivos, para inundar o novo ano de bons fluidos.

Oxóssi, o orixá que regerá 2009, com suas nuanças de verde, é o próprio símbilo da esperança, e terá seu lugar em alguma peça do meu vestuário, juntamente com o branco da paz. Assim, de verde, vermelho e branco, quem sabe o Fluminense não será campeão brasileiro de 2009? (juro que vou torcer para o Vasco sair da segundona).

Aos meus leitores, desejo que 2009 seja um ano de prudência (sem desconfiança), de poupança (exceto de amor, que deve se derramar diuturnamente), de pernas firmes (para nos levantar a cada eventual queda), de força interior (para superar as tristezas que rondarem) e de mãos à obra, que os verdadeiros valores só se alcança com muito trabalho!

Querido 2009, me antecipei para lembrar aos homens que a dor, a morte, a guerra, a usura, o egoísmo e todos os sentimentos negativos são fáceis e tentadores, mas a verdadeira felicidade só sente quem doa, quem cuida, quem abraça, quem entrega um pouco desse incomensurável amor que vive dentro de nós.

NÃO à violência, ao terror, ao crime e à inércia!

FELIZ 2009!

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Publicado por Lílian Maial em 28/12/2008 às 17h27
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20/12/2008 13h53
PAPAI NOEL E A CRISE
Papai Noel e a Crise
®Lílian Maial
 
 
Concordo com você: o estresse está no ar!
Crise é a palavra do Natal 2008, e acabamos sendo penalizados, tanto física, quanto emocionalmente.
As obrigações de presentear (no meu caso raro, tenho prazer, e escolho o que presenteio de acordo com as pessoas a quem presentear), acabam levando a população ao consumismo exagerado. Até os símbolos natalinos e o que gerou a comemoração do Natal ficaram esquecidos, e muito poucos sabem o porquê da árvore de Natal, do Presépio, de Papai Noel vestido de roupas de frio, e das cores verde e vermelho, rebanhos e pastores em pleno dezembro. Faça um teste agora e veja, na lista que citei, o quanto você sabe sobre o Natal.
Aqui em casa, por exemplo, as crianças não curtem o Natal como símbolo de fé, porque não somos religiosos. Aqui a comemoração se dá porque minha mãe – a matriarca da família – é católica fervorosa (embora não descarte simpatias e não deixe de realizar todas elas à meia-noite), e então a coisa soa como uma historinha mal contada e um hábito incorporado, como uma tentativa de deixa-la mais alegrinha e, a cada ano, eu tento me superar entre surpresas, enfeites e um cardápio para agradar aos paladares mais exigentes da família.
Só que, ao longo dos anos, depois de separação e o falecimento de familiares próximos, o Natal se tornou uma data triste e constrangedora, porque eles eram a graça e o charme da festa, junto com o pobre Jesus.
Aliás, o espírito natalino se tornou um símbolo de reunião da família. Passou a ter mais esse espírito de reunião familiar, do que de comemoração religiosa, e isso virou tormento em famílias desfeitas, quer por separação conjugal, quer por separação imposta pela morte de entes queridos.
Mesmo assim, insisto em montar a árvore, em reunir os filhos e minha mãe, em comprar presentes (na medida de meu parco orçamento) para alegrar os dias que antecedem o tal dia – agora estranho e incompleto – em que se come comidas diferentes do resto do ano e se enfeita a casa com símbolos que nem se sabe o que significam, mas que estão no clima e na moda. Quem não enfeitar a casa com os últimos e mais elaborados enfeites e luzes made in China não está com nada, é um segregado.
Isso tudo sem mencionar o Reveillon, que não deixa de ser uma obrigação de mostrar que estou feliz, quando muitas vezes preferiria ficar em casa sozinha e dormir cedo, mas nem essa opção eu tenho, porque os fogos de artifício espocam barulhentos desde as primeiras horas do dia 31, assustando os cães e as crianças, e lembrando o dia todo que eu sou "obrigada" a curtir Reveillon, mesmo que não curta.
 
Ah! Vocês devem estar me achando um saco, uma chata!
 
Sim, talvez esteja mesmo mais melancólica neste ano.
Talvez a dor alheia ainda me comova, e me doa o conhecimento de milhares de desabrigados de enchentes, de milhões de esfomeados e excluídos nos 365 dias e 6 horas do ano, a noção de doentes sem assistência... 
Talvez as notícias de criação de mais vagas para vereadores e suas milionárias comitivas, de mais demitidos das fábricas, de mais filhos perdidos por balas não tão perdidas, talvez tudo isso me cause essa melancolia natalina.
 
Ou não. Pode ser apenas um dia a mais para escrever sobre o que me incomoda o ano todo e tem me incomodado a vida toda: a minha própria inércia.
 
Que nada! É tudo culpa da crise. Foi ela, foi ela! Ela provocou as chuvas, ela aumentou o dólar e fez cair o preço dos barris de petróleo, ela até foi a culpada pelo futuro não aumento de salário dos funcionários públicos. Por causa dela, até a cor do próximo ano mudou de laranja para azul celeste...
 
Feliz Natal e Próspero Ano Novo!
E podem apostar que, em 2009, vai ficar tudo azul...
 
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Publicado por Lílian Maial em 20/12/2008 às 13h53
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19/11/2008 19h54
NEGRICE
NEGRICE
Lílian Maial


Papai me chamava carinhosamente de "petinha", que é o jeitinho tatibitáti para "pretinha". Ele já me adivinhava um arco-íris, um caleidoscópio, uma nebulosa.
Cresci incolor, transparente, imperceptível, sem máculas ou nódoas, sentindo na pele apenas o vento a eriçar pelos, ou o sol a dourar a alegria.
Foi quando me deparei com o mundo e essa coisa maluca de dividir em nuanças: claro e escuro, branco e preto, feio e bonito, macho e fêmea.
Bolas! Que diabos! Por que alguém deveria ser separado de outro alguém da mesma espécie, quando seres de espécies diferentes se dão bem? Se o homem possui animais de estimação para quem devota carinho, tempo, atenção e energia, por que não despende cotas semelhantes aos seres humanos que, afinal, são todos iguais na maneira de nascer, no DNA, na constituição física, nas sensações e sentimentos, nos potenciais?
Nunca aceitei discriminação de espécie alguma.
Um absurdo alguém se achar diferente de outro alguém (melhor ou pior), quando por dentro é igualzinho! Posso afiançar que somos todos iguais, eu já vi! Querem ver? Basta assistirem a uma cirurgia em indivíduos de cada região do mundo, e verificar que não dá pra identificar a “raça” por dentro.
Se eu tenho olho azul, não sou diferente de quem tem olho verde, ou castanho, ou preto. Meu olhar, sim, pode ser diferente do seu, do que carregamos em nossos corações.
Meu sangue é vermelho, e se esvai como o seu, numa hemorragia.
Minhas lágrimas são cristalinas como as suas.
Meus dentes são brancos, como os seus.
Meu corpo se deteriora a cada dia, em direção ao prazo estabelecido de validade, como o seu.
A dor da perda não é diferente. O riso da alegria também não. O amor, menos ainda. A esperança, essa é verde e universal.
Então, é por isso que sou negra, como sou amarela, vermelha, azul, violeta, verde, rosa, roxa, marrom, bege, lilás, grená, e todas as cores que o pintor do universo resolveu misturar na aquarela da vida.
Até hoje me lembro da brancura do sorriso de meu pai, e da negritude de seus olhos, que se misturaram no vermelho do meu sangue e na miscigenação do meu coração.
Não tenho cor e sou todas as cores, pois pinto meus dias de liberdade e de amor à vida. Todas as vidas. De todas as cores.
Enquanto houver necessidade de um dia de consciência negra, ou amarela, ou vermelha, ou branca, não haverá paz, e não haverá o verdadeiro amor no mundo.

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Publicado por Lílian Maial em 19/11/2008 às 19h54
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