Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
19/03/2009 20h50
SCENARIUM
SCENARIUM
® Lílian Maial

 
 
Hoje me dei conta de que não possuo mais a poesia de arroz com feijão.
Eventual salmão grelhado, regado a um doze anos, não verei teu despertar dos sonhos, e meu pesadelo é não saber de teus cuidados.
O cenário é outro. Sou proibida de te afagar as dores, de te acalentar os medos ou de apenas atenuar a febre.

Teu balbuciar, ao acordar da anestesia não me pertence, como não é meu nome que tua voz pronuncia, nem é minha a alegria dos teus olhos a cada nova conquista.
Percebi o grão de areia no vasto oceano das lembranças, levado pelas ondas que nem se dão ao trabalho de perceber a sílica. Areia despercebida numa praia onde o velho sol nasce e se põe, sem nem se importar se há ressaca.
De repente a finitude se amontoou no horizonte das palavras. Os versos enrubescem ante a inocência tola de uma rima equivocada, e o verbo perde a ação depois de tantas desinências.
Os dias passam sob narcose e a incisão profunda nem sempre dói.
Mas o tempo brinca de roda com a solidão do dia seguinte, e um fio de ontem se esparrama nos lábios, com gosto de surpresa.
A madrugada revela que não é ilusão a dor fantasma da amputação insidiosa.
O ar existe, a chuva cai, o vento venta, o sol se ergue e se esvai, o mar se encrispa, a flor se abre, o pássaro canta, o pinho chora.
Só que hoje me dei conta de que não poderei velar teu corpo.
 
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Publicado por Lílian Maial em 19/03/2009 às 20h50
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08/03/2009 11h24
FLORES NO DIA DA MULHER

FLORES NO DIA DA MULHER
®Lílian Maial
 
 
Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Não é um dia de enaltecer a mulher por ser perua ou bonita. É um dia em que celebramos as conquistas e avanços da mulher, pela luta por direitos iguais, respeito e livre arbítrio sobre sua mente, corpo e espírito.
 
Hoje recebi flores, enquanto a maioria receberá espinhos. Apesar disso, as flores não perdem seu perfume, sua beleza e seu encanto. Foram muito bem-vindas, até porque simbolizam a admiração de quem as envia.
 
Minha filha também recebeu flores, e, dentro de sua visão igualitária, por outro ângulo, se sentiu diferente de mim. Para ela, receber flores embute o significado de fragilidade, que é justamente o que se pretende desmitificar com a comemoração da data. Para ela, há um certo desvirtuamento da comemoração. Ela acredita que as mulheres usem esse dia para serem paparicadas e homenageadas, mesmo que, no dia seguinte, apanhem e calem.
 
Não deixa de ser uma observação interessante. Talvez eu esteja errada em me alegrar de receber flores. Talvez eu devesse me armar e estraçalhar as flores - coitadas - que pagam o pato, afinal.
 
Não sei até que ponto ser sensível e delicada, e ter isso reconhecido através da simbologia das flores, possa ferir a luta pela liberdade e igualdade de direitos.
 
Quando temos nosso ponto de vista, estamos tão acostumados a ele, que uma alternativa parece absurda e inverossímel. No entanto, ao longo dos anos, aprendi que sempre há dois lados da moeda. Aprendi a ponderar e rever meus conceitos.
 
No fundo, se fossem flores de uma pessoa qualquer, que não me conhecesse no mais profundo de mim, eu até poderia pensar na hipótese de minha filha. Mas se quem lhe  envia flores e felicitações é pessoa que sabe quem você é, que sabe da sua luta para defender quem não tem voz, sabe o quanto você é guerreira e feminista, sem deixar de ser feminina, aí as flores têm outro significado, e, mais uma vez, me orgulho de ser mulher, de ser feminina, de gostar de flores.
 
Sou, como mulher, por obra da natureza, sensível, delicada, maternal, cuidadosa, perfumada e colorida. Nem por isso deixo de ser forte, esteio, arrimo, guerreira e corajosa, como qualquer fêmea animal.
 
Assim, depois da ponderação, aceito as flores e felicitações, como forma de reconhecimento de que, mesmo feminina, delicada e sensível, sou lutadora e vitoriosa nas conquistas que a mulher vem alcançando ao longo dos séculos.
 
Parabéns a todas as mulheres que ousam. Parabéns às que defendem aquelas que calam, por não saberem ou não terem como agir de outra forma. Parabéns aos homens que nos reconhecem como seres humanos complementares uns dos outros, machos e fêmeas.

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Publicado por Lílian Maial em 08/03/2009 às 11h24
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06/03/2009 18h42
Aborto é mais grave do que estupro?
®Lílian Maial


 
Às vésperas da comemoração do Dia Internacional da Mulher, abro o jornal e leio a notícia absurda (no mínimo, hilária) da excomunhão da mãe e da equipe médica que cuidou da interrupção da gravidez de uma menina de apenas nove anos de idade, estuprada pelo padastro inúmeras vezes, grávida de gêmeos, com apenas 1,33m de altura e baixo peso, ou seja, uma criança grávida, apresentando risco de vida.
Pior que a excomunhão – que só assusta beatos e mentes obtusas – foi a declaração, essa sim, digna de excomunhão, de que o aborto seria pior que o estupro. Não me contive! Não acreditei no que estava lendo! Um dos atos mais bárbaros, baixos, cruéis, humilhantes, torpes, hediondos, criminosos, arriscados e um sem número de outros nomes menos soletráveis, ato esse combatido veementemente pela sociedade, a lei e até entre criminosos praticantes de outros delitos, sendo incentivado pela Igreja! E mais, com o apoio do Papa! É o fim da picada! É o absurdo dos absurdos! Além de não considerar a vida da criança – já molestada e afetada psicológica e fisicamente de tudo quanto é maneira – a Igraja ainda, por tabela, incentiva essa prática nefasta, uma vez que seu representante – um arcebispo – declara em alto e bom som que o estupro não tem a mesma gravidade de um aborto, mesmo os liberados pela lei!
Ora, para a população de uma área onde a impunidade impera, onde o machismo domina, onde são considerados verdadeiros ícones os animais que praticam esse tipo de delito (como uma série de outros atentados violentos contra a mulher), tal declaração do arcebispo caiu como uma luva, um consentimento - agora de Deus (afinal, ele é um de seus representantes aqui na Terra) - para que os homens possam não só arbitrar sobre o corpo da mulher, mas ter permissão divina de praticar qualquer ato que julgue aprazível, já que nem Deus condena.
É inacreditável!!!
Por outro lado, a equipe médica, que habilmente percebeu o grande risco de morte da menina, por sua tenra idade, seu parco desenvolvimento físico e pela gestação gemelar ainda por cima, agiu com consciência humana e profissional, na nobre (e muito pouco compreendida) missão de salvar vidas. E vidas que já existem, que já têm história, que já nasceram e possuem uma identidade, cidadãos com noção completa da realidade.
Penso que é intensamente curioso o raciocínio da Igreja e dos contrários à descriminalização do aborto, que ostentam que defendem vidas indefesas, mas não titubeiam em condenar uma menina de nove anos, já tão sofrida desde os seis, ou de atirar menores carentes e abandonados, filhos daquelas que eles não permitiram o aborto, num mar de lama, violência, marginalidade e falta absoluta de oportunidades.
 
Que retrocesso para as mulheres!
Transitoriamente cheguei a perder até a vontade de comemorar o Dia Internacional da Mulher. O que temos a festejar, diante desses absurdos?
Mas aí vem a certeza de que só alardeando a luta das mulheres pelo respeito, o direito de igualdade e, mais ainda, uma certa proteção, por sua fragilidade física, diante da força do homem, é que poderemos galgar os degraus que levarão as futuras gerações a ter seus direitos respeitados, assim como nós, mulheres de hoje, temos muito mais participação social do que há um ou dois séculos, não fossem os grupos de mulheres corajosas e batalhadoras por um mundo melhor e igualitário.
Eu condenaria, destituiria e excomungaria esse arcebispo, pela prática da insuflação popular de crime previsto em lei.
Quanto ao padrasto animal, certamente o aguarda a prisão numa cela cheia de machões que vão adorar recebê-lo como novato...
 
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Publicado por Lílian Maial em 06/03/2009 às 18h42
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05/03/2009 21h10
Pelo Dia Internacional da Mulher
®Lílian Maial
 
Apesar de suspeita para falar sobre a mulher, por ser autêntica representante da espécie, sinto-me confortável em discorrer sobre o tema, tão complexo e delicado (como nós), num mundo, até bem pouco tempo, só de homens.

A coexistência pacífica e complementar entre homens e mulheres sempre foi um ideal, mote favorito para crônicas e artigos, verdade absoluta e incontestável. No entanto, de uns tempos para cá, venho olhando por outro prisma, observando o comportamento, tentando compreender a razão dessa cisão, dessa separação desnecessária e infeliz, de maneira mais abrangente e menos radical.

Percebo que a cultura de um povo determina, na maioria das vezes, o comportamento social. Historicamente isto é bem evidente. Há uma necessidade vital de sempre existir um comandante e um comandado em qualquer relação, e isso se perpetua através dos séculos, não obstante todo o conhecimento adquirido, todas as lutas travadas, todo o pseudo-abolicionismo.

O ser humano sente imenso prazer em dominar, conquistar, usurpar, como um desafio que o homem assumiu desde os primórdios da civilização, pela força física privilegiada em relação à mulher. Esta, por sua vez, pelas vicissitudes anatômicas (ciclo menstrual, gravidez, lactação), acabou por acomodar-se na postura de frágil, delicada e submissa.

Se analisarmos friamente, não tem nada a ver a submissão, pois essas tarefas naturais da mulher (gestação, parto, amamentação) homem nenhum poderia assumir, ao passo que ela, com algum esforço e treinamento, poderia desempenhar qualquer atividade masculina.

Contudo, o homem sempre se prevaleceu de sua força física e teve nela sua maior habilidade, sem muita capacidade para a argumentação, compreensão lógica das idéias e vontade de dividir espaço (o que é facilmente observado nos meninos, diferentemente das meninas, sem que nunca ninguém os tenha ensinado).  Daí, que ele gostou da posição confortável de caçar, pescar, proteger, mandar e ser obedecido.

A mulher, por seu lado, cedeu com a maior facilidade, pois era difícil gestar, parir, alimentar a cria, cuidar da prole, e ainda ter de combater, defender o clã, caçar, pescar e estar bem e refeita para o encontro com seu macho.

E essa conversa veio se perpetuando ao longo dos milênios, sendo modificada de acordo com cada cultura, região, religião.

Artistas pintaram, cantaram, recitaram, enalteceram a mulher, não por seus feitos, sua força interior, sua luta, sua capacidade de resolver questões e propor medidas que mudariam o mundo.  Não! Adoravam a mulher por suas formas e sua maternidade. Ora, isso não é qualidade de mulher alguma, é genético, é obra da natureza. Não há o que enaltecer. A mulher tem essas formas, com seios e curvas, porque é a fêmea da espécie. Tem útero e pode engravidar porque é a fêmea da espécie e isso é característico, não é mérito.

Deveriam pintar a mulher e o homem, ambos caminhando e trilhando o sucesso e o fracasso da mesma maneira, tanto profissional, quanto pessoal e familiarmente falando.

Como os homens adoram conquistar e disputar seu poder, as guerras foram inevitáveis e as mulheres precisaram exercitar as artes de defesa, o comando, a organização do clã, e notaram que podiam perfeitamente conciliar tais tarefas com as suas habituais.

Aos poucos, o retorno dos homens - vitoriosos de suas conquistas - levou as mulheres de volta à condição anterior, o que começou a incomodar a muitas, aquelas mais dinâmicas, mais esclarecidas, mais dotadas de iniciativa, passando a aceitação da submissão a ficar intolerável.

Ameaçadas de perder o papel de donzelas frágeis e indefesas, e invejosas da inteligência, coragem e aptidão das guerreiras, as mulheres acomodadas deflagaram batalhas subliminares àquelas revolucionárias, unindo-se silenciosamente aos homens na manutenção do domínio, num machismo cruel, insidioso e profundamente marcado na educação dos filhos.

Por conta disso, implanta-se essa divisão desnecessária e imbecil entre homens e mulheres, numa disputa incessante, numa violência subentendida, numa discriminação camuflada em pequenos detalhes, numa total falta de lógica e adaptabilidade.

Se homens e mulheres se percebessem iguais, com as mesmas possibilidades de carreira, de vida familiar, de respeito e felicidade, apenas com responsabilidades da natureza um pouco diferenciadas (maternidade x força física), seriam infinitamente mais felizes, haveria menor incidência de crimes, de drogas, de guerras, de fome, de abandono, de desamor. O homem contribuiria em casa normalmente, como se não houvesse mulher, a mulher batalharia na rua, para o sustento, como se não houvesse homem, e ambos curtiriam as gestações, a família, a criação dos filhos, com o mesmo orgulho, disposição e disponibilidade.

Com a divisão absurda de homem provedor e mulher dona de casa, a própria sociedade passa a impor à mulher tarefas (as quais ela mesma não se enquadra) e rejeita que ela almeje “coisas de homem”.

Então, somente aquelas que decidem não se acomodar e tomar para si o que sempre foi seu, que é a liberdade de escolher ser o que tem vontade de ser, sem ter a obrigação social de “agir como mulher”, somente elas atingem a verdadeira liberdade interior, muitas vezes à custa de uma sobrecarga de responsabilidades, já que dificilmente encontrará um homem que naturalmente divida sua total liberdade com uma mulher, abdicando do poder e do domínio social, para aprender a compartilhar e ser cúmplice.

A essas mulheres, e somente a elas, eu dedicaria um “dia internacional”, porque essas são mais corajosas e honestas que outras da espécie, inclusive mais que muitos machos, que se acovardam por trás da força física, completamente temerosos de compartir com mentes lógicas, de sentimentos nobres, humor delicado, passos incertos, mas determinados, rompendo a casca do ovo, abrindo as asas e se lançando ao novo.

A essas eu dedico meus textos, meus versos, meus sonhos. Sim, porque elas são eternas sonhadoras, românticas, femininas, que sabem muito bem o seu papel na vida, como companheira, guerreira, doce, cheirosa, harmoniosa, e também decidida, atrevida, voraz, objetiva, cheia de vida e mulher.

O “Dia Internacional da Mulher” não é um tributo à beleza ou à maternidade, que isso é natural, por obra e graça da genética. A homenagem é justa, mas se pelos motivos certos, ou seja, a força interior, o espírito de luta, a busca da verdade, da igualdade entre os seres humanos, da autêntica fraternidade, sem discriminação, sem submissão, sem falso-moralismo, sem hipocrisia, sem camuflagem.

O “Dia” é bem-vindo e adequado, mas para lembrar aos homens o quanto foram injustos desde o início dos tempos, isolando num altar, redoma ou ostracismo aquela que é sua metade, seu complemento, para a razão de ser da humanidade. 

É bem-vindo para lembrar às mulheres o quanto tantas outras tiveram que lutar, que morrer, que perder tudo, simplesmente para que hoje pudéssemos galgar a posição na vida que sempre deveria ter sido nossa e que nos foi negada.

Nunca houve motivo lógico e real para essa divisão homem/mulher, pois que sempre fomos necessários, as duas metades, de maneira igual, para a perpetuação da espécie. Não há vida se não houver a união igualitária de cromossomos de um homem e uma mulher, 50% de cada.

Então, mulheres, sejam apenas mulheres, mas não aceitem ser menos que isso! 

Não aceitem a submissão, escravidão, mesmo que disfarçados de ciúme, de amor, ou seja lá do que for, porque isso seria um desrespeito à memória daquelas que lutaram pela igualdade, pela justiça social e pelo verdadeiro amor.

Não há mérito algum em ser bonita, ter curvas perfeitas, ser mãe zelosa, porque isso é atributo da natureza, já veio de fábrica.
Há mérito, sim, em criar homens e mulheres iguais, com as mesmas normas, mesmas oportunidades, mesmos direitos. Há mérito em admirar as mulheres que conseguem isso.
Há mérito em aceitar o homem que sabe compartilhar, e rejeitar o que nos rejeita livres, o que nos denigre, o que não nos quer iguais em tudo.
Há mérito, enfim, em viver e deixar viver livre, batalhando para que todos possam usufruir a liberdade, mesmo que a sua opção, por livre arbítrio, tenha sido a de cuidar da casa e dos filhos, e que esteja inteiramente feliz com isso, afinal, você é livre para escolher a maneira de ser feliz.

 
Rio de Janeiro, 08 de março de 2005.
  
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SER MULHER

Lílian Maial


Nasci mulher, é fato
Gameta indiscutível,
Cometa irremediável,
Soneto jamais escrito.

Cresci menina, concordo,
De pernas cruzadas,
Cabelos alinhados,
Pelos depilados.

Vivi madura, é certo.
Aprendi a traçar os olhos,
A disfarçar as lágrimas,
A não borrar a maquiagem.

Sonhei criança, feliz.
Escrevi meus passos,
Acreditei nos planos,
Colhi meus frutos.

Provoquei emoções, faz parte.
Ensinei meus truques,
Repiquei batuques,
Batalhei com arte.

Briguei na vida, gritei.
Enfoquei os problemas,
Resolvi os teoremas,
Me entreguei a poemas.

Quebrei espelhos, de raiva.
Escondi a dor,
Distribuí amor,
Superei o tempo.

Amei demais, está em mim.
Mulher sem amor não existe.
Atraí desejos, por capricho,
Ou não, por pura paixão.

Caminhei e caí, me ergui.
E não pretendo mudar.
Arregacei as mangas tantas vezes,
Que já nem sei desenrolar.

Mas...quer saber?
É uma delícia ser mulher!
Não troco por nada, por ninguém.
Volto assim mil vezes, se puder.

E quando o véu da noite,
De inveja e despeito me levar,
Que o amor que distribuí,
Os frutos que plantei, venham, enfim, me regar.

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Publicado por Lílian Maial em 05/03/2009 às 21h10
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25/02/2009 20h09
QUARTA-FEIRA DE CINZAS
®Lílian Maial
 
 
Depois da tempestade, a bonança. Foi como acordei hoje, meio quarta, meio cinza, inteiramente calmaria.

Em dias normais, diria que calma demais pra meu gosto. Numa quarta-feira-pós-terça-gorda, apenas ressaca de pretensa euforia.

Enquanto muitos ainda insitem em perpetuar o feriado e uma estranha alegria, seja torcendo na apuração das escolas de samba, seja pegando uma corzinha na praia, seja num cineminha, eu encaro o fim com um certo marasmo, talvez o mesmo com que venha encarando os últimos tempos.

Ah! Não é depressão, não. É que fiquei assim desde que a linha que tracei para minha vida foi desfeita por quem eu mais apostei. As coisas não fazem mais sentido, não me encaixo em mais nada, ou nada mais se encaixa em mim.  
Como bem disse Cecília Meireles, não sou alegre e nem sou triste: sou poeta.

Que merda!
Ser poeta numa quarta-feira de cinzas é um saco! A gente olha prum lado e tudo dói, olha pra outro, e tudo foge. O verde é cinza, o azul é chumbo, o vermelho é olho que chorou. Cinza é morno, e morno sequer é tormento. Chumbo nem é dia e nem é noite, nem é brisa e nem é vento. E o olho vermelho é sangue de uma hemorragia que nunca que estanca.

O tempo que me resta é composto de um enfileirado de quartas-feiras de cinzas, até que eu mesma me transforme em pó. Em pó cinza.

É, Cecília, como você, eu também passo. E canto. E sei que a canção é tudo, embora a voz tremule e a melodia se esqueça das notas.

Desde que a poesia se foi porta afora, levando as malas e o meu chão, que as minhas asas perderam a capacidade de voar. Ela, a poesia, era meu alicerce, era a corda que me permitia ir além, era meu sonho e minha realidade.

Hoje só faço despencar todos os dias e esperar, com as portas abertas, que meu poema retorne, e me pegue pela cauda (já que sou cometa), revelando todas as verdades que vinha me ocultando, me encarando de frente, de igual para igual, de peito aberto, ou ainda escondendo mais mentiras e me poupando do aborrecimento que é cantar.

A quarta-feira de cinzas ainda não me queimou a vontade de ouvir a música dos teus lábios, aquela que fará enredo novamente no meu peito.
 
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Publicado por Lílian Maial em 25/02/2009 às 20h09
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