Lílian Maial

Basta existir para ser completo - Fernando Pessoa

Meu Diário
05/10/2009 21h44
DUERME LA NEGRA

DUERME LA NEGRA
Lílian Maial


Fui "cobrada" por não ter escrito nada ontem, sobre o falecimento de Mercedes Sosa. Este é, realmente, um ano de grandes perdas para o mundo das artes, em geral, notadamente a música.  Neste Domingo - 04/10/09 - se fué Mercedes Sosa, uma das maiores expressões da música latino-americana.

Sosa não chegou a ser ícone da minha juventude, pela minha pouca idade, na ocasião em que ela foi emblema de luta pela PAZ e LIBERDADE dos "sem-voz", com seu marcante timbre de voz de contralto.
Seu repertório folclórico e de conteúdo político e social fizeram dela uma figura respeitada e admirada, notadamente pela geração que, hoje, conta com cerca de 60 anos.


Aqui, no Brasil, ela começou a ficar conhecida a partir de 1976, após um dueto com Milton Nascimento, com a belíssima interpretação de "Volver a los 17" (aquela do famoso refrão "como el musguito en la piedra, hay si, si, si..."), da compositora chilena Violeta Parra, e que se transformou  num dos maiores destaques do álbum "Geraes", do Mílton.
Além dele, outros cantores brasileiros gravaram com a cantora, como: Fagner, Chico Buarque e Caetano Veloso.

Consta que Mercedes Sosa passou a integrar a esquerda a partir dos anos 60, e que teria se exilado na Europa, perseguida pela ditadura militar argentina, em 1979 (Paris e Madrid).

Independentemente das posições políticas, Mercedes merece ser ouvida por sua grande voz e seu repertório, sempre valorizando a música latino-americana.

Abaixo, transcrevo o poema de um amigo, grande admirador da artista:


Duerme La Negra

Enquanto o gás nos fazia chorar
Mercedes Sosa cantava
Me gustan los estudiantes.

Ela que trazia a Latino-américa
no semblante & na voz.

Enlaçava nosotros
em Los Hermanos
dando Gracias a la vida.

Se fué para nuevos cielos
assim como Alfonsina.

Entonces ahora
en silêncio
Duerme Negrita...

Ricardo Mainieri
____________
________________________________________

La Negra foi um dos mais famosos apelidos
de Mercedes Sosa


**************

Publicado por Lílian Maial em 05/10/2009 às 21h44
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para o site "www.lilianmaial.com"). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
02/10/2009 20h51
RIO 2016 - SERÁ QUE EU CHEGO LÁ?
2016 – Será que eu chego lá?
®Lílian Maial


 
É, pessoal, o Rio conseguiu! Vamos sediar os Jogos Olímpicos de 2016! Não é o máximo?

Meu coração ficou absolutamente dividido nessa questão. Por um lado, meu “eu” patriótico se encheu de orgulho, alegria, vaidade. Nossa! Meu país, minha cidade! Que orgulho! Aos pouquinhos vamos nos infiltrando na panelinha. Lentamente o Brasil vai ficando mais conhecido no mundo, vai deixando de ter “Buenos Aires” como sua capital. Afinal, nada mais justo, pois não devemos nada, em termos de belezas naturais e qualidade esportiva, a nenhum outro país do mundo, guardadas as devidas proporções e dificuldades nacionais.

Porém, um outro lado se agita e se preocupa, pois 25 bilhões surgirão como que por encanto, para preparar a cidade para evento tão vultuoso. Fica a pergunta que não quer calar: de onde virão os 25 bilhões?

Nosso país possui problemas endêmicos de educação, saúde, segurança, emprego, habitação, já bastante familiares ao nosso dia-a-dia. Para saná-los, não existe bilhão nenhum. Existe esperteza, enganação, embromação. Existem medidas paliativas. Permanece o medo, o marasmo, a anemia, a ignorância. Quem bancará esses 25 bilhões?

Não digo que não surgirão empregos, que a cidade não será embelezada, que não será um marco para o país, enfim, um evento maravilhoso. Contudo, sabemos que se trata de maquiagem. Que por baixo da grossa camada de blush e pankake, o povão continuará pobre, faminto, apertado horas a fio em transportes indignos, com medo 24 horas por dia.

Aí me vem a pergunta abafada: e se aplicássemos esses 25 bilhões em nós mesmos? E se injetássemos uma quantia polpuda como essa na saúde, educação, segurança e habitação? E se déssemos condições dignas aos nossos jovens de se tornarem atletas bancados pelo governo, e se tornarem adultos com um futuro palpável?

Na ocasião do preparo para o “PAN 2007”, o Rio de Janeiro viveu um período de aperto, com toda a verba municipal desviada para as obras, na esperança de haver uma luz no fim do túnel, uma injeção de dinheiro estrangeiro, de se abrirem portas para o futuro. As únicas portas que eu vi foram as da rua, para uma série de trabalhadores que perderam seus empregos, ao final dos quatro anos em que se esperou pelo milagre. O “PAN” não trouxe as divisas esperadas, nem transformou a cidade em nada de diferente do que já não fosse.

Agora surge o receio de se repetir o mesmo nos Jogos Olímpicos, só que, ao invés de quatro, serão sete anos de apertos, obras pela cidade, verba reduzida, recusa (que já começou) de reajustes de salário dos funcionários públicos, já tão vilipendiados, enfim, crise em cima de crise, arrocho em cima de arrocho, de forma que a qualidade de vida dos cariocas se restrinja cada vez mais.

Quero que me perdoem pelo tom algo negativo, justo no dia em que todos estão comemorando, mas é que eu tenho uma visão mais real do que acontece com nosso povo, com nossas famílias, com nossos filhos. Sofro, como todas as mães, com cada manhã, quando não sabemos se, ao final do dia, nosso filhos voltarão para casa e nem se nós mesmas voltaremos.

De toda forma, estou muito feliz com a escolha do Rio de Janeiro para sediar a sede dos Jogos, pois seremos, por breve tempo, vitrine para o mundo, e acredito que nosso povo mereça um olhar de mais respeito.

Rio 2016, será que eu chego lá?
 
******************
 
 

Publicado por Lílian Maial em 02/10/2009 às 20h51
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para o site "www.lilianmaial.com"). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
28/09/2009 19h54
MINHA MÃE TEM CHEIRO DE FLOR
Minha Mãe tem Cheiro de Flor
®Lílian Maial
 

Minha mãe tem cheiro de flor. Não é à toa que seus perfumes favoritos, por ocasião da minha infância, fossem dois florais da griffe Caron: “Fleur de Rocaille” e “Muguet du Bonheur”.  Até hoje sua pele recende a jardim, onde me deito e me delicio com as fragrâncias que exalam aconchego, proteção e ninho.
Minha mãe, que nasceu no inverno, tem as cores todas da primavera, como as flores do campo, que desabrocham com o calor e o carinho. Tem a delicadeza das flores, a maciez das pétalas, alguns espinhos necessários, mas também a plena consciência de sua função de florir.
Sou capaz de reconhecer o cheiro da minha mãe, como também o de cada filho, e não há nada mais meu (ou mais eu), do que o roçar em sua pele.
Minha mãe hoje parece uma margarida, com seu rosto-miolo redondo e rico em pólen de vida, com os cabelos de pétalas brancas, com os quais brinco de bem-me-quer e mal-me-quer, sendo que o mais importante é que ela-me-quer sempre.
O sorriso de minha mãe tem alquimia, tem o poder de potente analgésico, de curioso ansiolítico e do mais eficaz relaxante muscular. É bater e valer!
Além de alquimista, é um pouco bruxa, maga, adivinha e curandeira. Sua mão mexe comigo, alcança meu coração e meu espírito, massageia meu ego e transforma todas as minhas agonias. Algumas vezes provoca outras, muito embora, nesses casos, quando me deparo com a possibilidade de não mais tê-la por perto.
Minha mãe é um bouquet de amor-perfeito, que a Natureza me presenteou, e que todos os dias se abre para que eu caiba inteira, num só amarrado.
 
******************
 

Publicado por Lílian Maial em 28/09/2009 às 19h54
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para o site "www.lilianmaial.com"). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
16/09/2009 21h43
ERA UMA VEZ UM GRANDE AMOR...

  
           Luiza confabulava com seus botões, absorta em seus pensamentos: “É assim que as coisas parecem ser: aquilo que não é conforme se pensa, passa a ser errado, monstruoso, criminoso até! Você pode ser uma pessoa legal, boa, sem más intenções, ao contrário, pode fazer de tudo por alguém, ser capaz das mais lindas delicadezas, dos maiores sacrifícios até, mas tudo vai pelo ralo, tudo vira lixo, quando alguma coisa não sai exatamente como o outro quer”.
Ela se perguntava se aquilo era amor. Se condenar, criticar, não valorizar o que o outro gosta, fazer pirraça, usando inclusive pessoas boas para esse fim, se era amor. Não parecia. Para ela, amar não era só ficar com a pessoa no pensamento e querer bem quando ela faz o que o outro quer. Amar seria um querer bem sem condições, nada de imposições do tipo: “só te quero se for assim”. Isso não é amor, é posse, é egoísmo, é barganha com o sentimento. 
Enquanto caminhava pela rua, tinha certeza de que quem ama de verdade ajuda o outro, o incentiva, se preocupa com ele, quer bem, quer ver feliz, passa a amar o que o outro ama, até mesmo o time de futebol e a terra natal.
Sabia que o verdadeiro amor aceita o passado, não tenta modificar, como condição para ser feliz, mas vai sutilmente trazendo a pessoa amada para o seu jeitinho.
Estava convicta de que quem ama não se vinga, não xinga, não fere. Que quem ama poupa e faz de tudo para ver o outro sorrir, e não para causar mágoas. Não proíbe e não aprisiona, mas liberta e torce para que o outro esteja bem e que queira ficar por prazer, não como condição para ser aceito.
Enfim, intuía que quem ama aceita, de verdade, qualquer coisa que venha do outro, mesmo que aquilo vá de encontro aos seus conceitos, à sua maneira de ser. Que quem ama tenta entender as razões do outro, tenta se aproximar das coisas do outro, tenta trilhar os caminhos ao lado do outro, e não impedir que o outro tenha seus próprios passos.
 
Ela se sentia triste. Via, a cada dia, que não era reconhecida, que era desvalorizada. Não era amada como pessoa, se percebia apenas desejada como uma coisa, uma conquista, uma obsessão. Era fruto da imaginação do outro, mas não se sentia amada pelo que era, mas pelo que o outro queria que ela fosse.
E ela acabava por topar isso, aliás, vinha topando, embora percebendo que estava deixando de ser ela mesma.
Ninguém a reconhecia. Nem ela mesma se reconhecia! E quando voltava a tentar resgatar um pouco da alegria natural e da espontaneidade infantil, era crucificada por ser verdadeira, por não mentir, por não esconder. E o pior, descobriu o ódio, a vingança vil, as atitudes que não tinham como serem desfeitas. 
Foi taxada de falsa, de promíscua, de baixa, de podre e de coisas piores, apenas por ser uma pessoa autêntica, que não escondia seus sentimentos para com as pessoas. Por ser transparente e pura. 
Se fosse sonsa e mentisse, talvez fosse valorizada.
O pior é que o outro, Maurício, ele sim, tomava as atitudes podres e baixas, e ainda posava de vítima. Mas sorria, e muito contente e poderoso, ao beber as lágrimas de quem o amava.
Luíza estava chegando ao seu limite. Não suportava mais as humilhações e concessões que era obrigada a fazer, para usufruir de um sentimento que se desgastava com tanta dor, tanta mágoa e tanto abraço vazio.
E tudo por alguns momentos de felicidade, por um trocado de carinho e uma entrega intensa, por alguns parcos minutos, cada vez mais raros.
Não! Aquilo teria que acabar! Era como um vício, e todo vício é maléfico, destrói, aniquila! Ela precisava dar um basta! Emergir de tantos maus tratos, de tanta subestimação. Afinal, ela era linda, inteligente, bem sucedida, não precisava daquilo.
Suportou as mais cruéis provocações, a disputa, a inveja, a baixeza, em nome de um amor que parecia unilateral.
Era chegada a hora de se libertar, de cortar o cordão, de ter coragem de amargar a falta daquele que não a entendia e não a respeitava.
E ela, um dia, disse não. Saiu e bateu a porta. Não voltou implorando. Não olhou para trás, e, finalmente, Luíza encontrou o caminho de volta para si, deixando a promessa de Maurício misturada ao seu amargor, sua ignorância e seu egoísmo.
Luíza triunfou e ganhou o maior de todos os amores, uma vez que era ela novamente, disposta a arcar com cada amanhecer, e com o propósito supremo de adormecer com o coração em paz e livre!

************

Publicado por Lílian Maial em 16/09/2009 às 21h43
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para o site "www.lilianmaial.com"). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
 
09/08/2009 15h42
FELIZ DIA DOS PAIS!
Ontem coloquei aqui uma carta de 1983, quando meu pai deixou um imenso vazio preenchido de saudade. Naquela ocasião, eu era só dor da perda. Hoje, no entanto, eu tenho filhos, que têm um pai, então escrevo algo mais light, para homenagear todos os pais:


(I)
 
SALTO
Lílian Maial

dizer o momento - não sei 
do útero materno
ao colo que mais amei
 
*********


(II)

ANATOMIA DE PAI
Lílian Maial

teus braços me aportavam 
as mãos me apontavam o caminho 
nos olhos: só carinho
 
***********


(III)

CANTIGA DE NINAR
Lílian Maial

ao som de tua voz
adormecia em paz
quero que cantes mais
 
*************
 

 
(IV)

AINDA OUÇO
Lílian Maial
   
a chave na porta 
feliz chegavas em casa
agora, Inês é morta, e eu: sem graça

***********       
 

Publicado por Lílian Maial em 09/08/2009 às 15h42
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para o site "www.lilianmaial.com"). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.



Página 15 de 37 « 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 » [«anterior] [próxima»]



Site do Escritor criado por Recanto das Letras
 
Tweet